06/08/2026
A classificação das Roças de São Tomé e Príncipe como Património Mundial da UNESCO é, sem dúvida, uma notícia extraordinária. As roças fazem parte da história e da identidade do país e é importante preservá-las.
Mas, depois de ter vivido em São Tomé, há uma reflexão que sinto que também precisa de ser feita: o que significam estas roças para quem lá vive?
Para nós, que olhamos de fora, é fácil ver um edifício antigo e pensar em património, história e monumentalidade. Mas, para algumas pessoas que nasceram e cresceram nestes lugares, aquelas paredes podem representar dor, exploração, pobreza e até vergonha. E quando a luta diária é conseguir comida para pôr na mesa, é difícil olhar para uma ruína e vê-la como um monumento que precisa de ser preservado.
Hoje, algumas roças estão concessionadas a empresas privadas ligadas ao turismo, que têm feito um trabalho importante na sua recuperação e valorização. Outras têm projetos para se transformarem em espaços culturais e de conhecimento. Há ainda aquelas que mantêm viva a tradição do café e cacau que começam a encontrar no turismo uma nova oportunidade.
Mas muitas continuam esquecidas.
A Roça Agostinho Neto, a maior do país, é um exemplo disso. Está profundamente degradada e a antiga casa do hospital é apenas uma parte de um património que se está a perder.
Por isso, esta classificação da UNESCO é uma enorme oportunidade. Mas também deve ser o início de uma reflexão mais profunda.
Não basta preservar paredes. É preciso preservar memórias, ouvir as comunidades e perceber o que estes lugares significam para quem lá vive.
Talvez o verdadeiro desafio seja transformar espaços que um dia representaram dor em lugares de cultura, conhecimento, oportunidade e futuro.
É esta conversa que, na minha opinião, também precisa de ser feita. Porque São Tomé tem muitas histórias. E algumas delas, simplesmente, não vêm nos guias.