10/09/2018
A 5 dias do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade, completamos 30 dias no Crer Caminho Religioso Da Estrada Real.
Diário de Bordo por Claudio Leão - 21° ao 30° dia 🚶🚶
21° dia: Congonhas a Conselheiro Lafaiete - 01/09/2018
Dia longo de caminhada. Trinta e oito quilômetros. O Zé Marcos continuou nos acompanhando na caminhada e seguirá, amanhã. O Tarol nos alcançou na parte da tarde e ficou no apoio, com a caminhonete. A tarde tivemos a companhia do Elder, de bicicleta, que pedalará, também, amanhã. Daqui de Lafaiete esta prevista uma turma de umas 15 pessoas, caminhando conosco até Ouro Branco.
Então, Amanhã, grupão!!!
Um pedaço do nosso dia foi cortando uma mineradora, com muitos caminhões e lama, da água que jogam, para baixar a poeira. Iniciamos essa história em Aparecida, Vale do Paraíba, margeando a Via Dutra. Um Vale agrícola, salpicado por cidades, algumas maiores e abrigando alguma indústria, comércio e universidades, outras mais tranquilas e pacatas. Atravessamos a Mantiqueira, suas estâncias, águas, cafés, queijos e agora, azeites. Subindo mais, temos uma região de terras extensas, muitos grãos, agricultura diversa e os melhores queijos finos do Brasil. Nesta região, entre Carrancas e Cruzília, teve origem o Cavalo Mangalarga e suas variações. No Campo das vertentes, seguimos com a vocação agrícola. Ai nasceram o Jumento Pêga, em Lagoa Dourada e o Cavalo Campolina, em Entre Rios de Minas. De agora até o final, o Minério dita o tom da vida. E o tom é o vermelho férreo!
O que ví com meus olhos, foi uma degradação completa. Usos equivocados e predatórios dos solos agrícolas, dos solos urbanos, dos solos insumos minerais. Poluição total das águas e redução drástica deste precioso recurso.
Temos todos os recursos deste planeta para nosso desfrute e prosperidade, promovendo, inclusive, a prospedidade destes próprios recursos. E acreditem, isso é possível.
Que este caminhar mostre ao meu olhar, as mazelas humanas crivadas neste mundão natural de meu Deus. Que o meu olhar leve até ao olhar de outros, essas máculas e que a partir daí, mais gente acredite que é possível ter prosperidade num mundo próspero. Que podemos ser felizes, num mundo feliz e que podemos seguirmos sendo gente, num mundo de gente!
Em Lafaiete, estou na casa do Padre Zé Maria. Comemos no Amigo Sobrado, o que não podia ser diferente. Cansado e antes do Banho, fomos a missa. A convite do Padre Zé Maria, assistimos no altar, com cajado mochila e poeira de um dia de caminhada. Ainda tive que falar na Homilia!
22° dia: Conselheiro Lafaiete a Ouro Branco - 02/09/2018
Pela manhã nos aguardavam alguns integrantes do grupo de caminhada Aroeiras, de Lafaiete, minha amiga Clarissa, que é do Circuito Turistico Vilas e Fazendas e da secretaria de turismo de Lafaiete e o povo de Congonhas, que daqui a pouco chega com a gente na Serra da Piedade. A esposa do Douglas veio para um dia de cavalgada e o Elder, para pedalar e trouxe o filho de 8 anos, para uma parte do caminho.
Saímos após uma benção do Padre Zé Maria. Despedimos dos amigos, com uma agenda de retorno, ainda no final deste mês, para uma cavalgada. Eu venho com a familia! Só não vou comer no Sobrado, porque ele não cobra!
Ontem, durante a missa, tinha um cachorro dentro da igreja, na maior tranquilidade. O Padre disse que ele assiste a todas as missas.
Se chama Coroinha! Ele foi seguindo nosso grupo e na metade do caminho, Pifou. O Sol estava quente e o Coroinha, gordo que só, se aquietou numa sombra. Tentamos coloca-lo na caminhonete de apoio, mas ele não permitiu.
Os caminhantes de Lafaiete disseram que ele volta para casa, digo, para a Igreja.
Depois pergunto para a Clarissa se ele retornou! Não vou ser bobo de perguntar ao Padre, vai que ele não voltou!
Normalmente não deixo os cães nos seguirem, para não ficarem perdidos, longe de suas casas. O Coroinha foi um caso a parte, porque os meninos disseram que ele sempre acompanha o grupo de caminhadas.
Chegamos em Ouro Branco, comemos e estamos descansando. Hj Ficamos todos no mesmo hotel. O Douglas, foi para casa e retorna amanhã.
Por falar em amanhã, teremos que participar de um evento na prefeitura.
Pedí para não atrasarem muito, póis temos um belo dia de caminhada pela frente.
Faltam 13 dias para o término.
Estou mais sereno. Adaptado!
Muita coisa para fazer e me ocupar a cada dia, para tudo aqui dar certo!
Fácil sair na frente quiando caminhantes nas curvas do caminho. Aqui é muitissimo mais que isso. É levar todos em segurança, mesmo andando por último. Saber cada passo dos que estão a frente. Saber das bolhas dores e anseios de cada um que esta sob sua tutela, mesmo que eles nem saibam disso. Saber do carro que se perdeu, da ferradura solta do cavalo, da hospedagem, comida e tudo mais que nos espera. É ver tudo isso funcionar, como uma orquestra: É ver todos curtirem a música!
É errar e acertar. É sempre continuar.
Parafraseando um amigo: Aqui é muito bom. Não é o céu, mas é muito bom!
23° dia: Ouro Branco a Itatiaia - 03/09/2018
Caminhamos pelo alto da Serra de Ouro Branco. Antes, tivemos que chegar lá!
Seis kms por um asfalto sem acostamento e um subidão cheio de curvas, nos quilômetros finais.
Mas vale a pena! Uma paisagem belíssima e alguns pontos com sombra.
A maior parte do que se avista são campos rupestres, aquela vegetação típica de alto de Serras mas, também, tem alguma pastagem, cultivos de Eucalipto e muita, muita mata.
O dia amanheceu seco e com o céu totalmente azul. Foi salpicando de nuvens, mais na parte da tarde.
Encontramos o Olavo pelo caminho, estava indo para Carrancas, com a esposa que esta de férias. Na sexta ele reassume o nosso carro de apoio e o Paulo retorna para BH. Chegamos bem em Itatiaia. Nos aguardava uma comidinha, na trempe do fogão a lenha! Arroz, feijão, angú, couve, carne de porco e frango caipira.
Chegamos bem, como se hj fosse possível chegar bem em algum lugar.
Chegamos de luto, pela nossa cultura. Luto pelo nosso país. Com uma dor escancarada por tamanho descaso. Uma dor já guardada a tempos e que explode nestas situações grotescas, como o incêndio lá no Rio. O museu em chamas faz arder todas a brasas, acesas, no nosso peito. Faz lembrar das tantas mortes sem nehuma assistência. Das vítimas, incontáveis, da violência. Dos destituídos, cada dia em maior número, e de toda essa calamitosa situação que estamos vivendo!
Estou aqui, caminhando por um museu aberto, sonhando com que toda essa riqueza possa ser acessível a todos.
Hj, me emocionou ver o Olavo pelo caminho. Para isso estou trabalhando, para colocar as pessoas no caminho.
O Olavo passou por carrancas, gostou e esta indo com a esposa para uma semana de folga. Sonho com milhares de pessoas assim: Caminhando por estes lugares lindos, se apaixonando e retornando. Assim , gerando um fluxo que distribuirá riqueza e renda, de maneira mais igualitária e justa. Por isso estou caminhando aqui!
Sonho com essa igualdade e com esse museu vivo que assisto aqui!
Por hora, me resta lamentar a morte, matada, do Museu lá no Rio de Janeiro!
24° dia: Itatiaia a Lavras Novas - 04/09/2018
Boa notícia, hj. Lembram-se do Coroinha, o Cachorro que assistia as missas lá em Lafaiete, que nos seguiu e não conseguimos colocá-lo no carro de apoio para leva-lo de volta para casa? Pois é, já esta de volta. O Padre conseguiu resgatá-lo!
Final feliz!
Já disse que não gosto de deixar os cães nos seguirem. O coroinha foi, porque o povo que estava junto com a gente disse que ele estava acostumado a fazer isso.
Não gosto de maltratos com os animais. Não sou vegano, mas trato com muito respeito esses nossos companheiros bichos, sejam eles animais de estimação,
destinados à nossa alimentacão ou silvestres! Acredito que o respeito e o apreço por todas as vidas seja a base para o apreço a vida do próprio Homem.
Hoje chegamos em Lavras Novas. Amanheceu chovendo e o dia foi se limpando até terminar em um entardecer claríssimo, aqui no alto da serra. Chegamos por uma trilha que acho lindíssima! Lavras Novas, na terça feira, é um sossego. Não gosto muito do agito dos finais de semana.
Ah, Aqui nunca foi quilombo, escuto tanta gente dizendo isso. Já ví uma dissertação de mestrado sobre esse tema, num curso de antropologia.
Se vinhámos subindo e descendo morro todo o percurso, agora, desde que adentramos as Serras do maciço do Espinháço, o troço ficou feio.
Todo dia é uma montanha para atravessarmos, quando não são duas!
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25° dia: Lavras Novas a Ouro Preto - 05/09/2018
Ouro Preto! Chegamos pelo Parque Estadual do Itacolomi, passando antes pela represa do Custódio e por aqueles maravilhosos e arborizados caminhos para se chegar na fazenda do Manso. Dia lindo de caminhada, claro, sem escapar de subir e descer!
Agora estamos a10 dias da Serra da Piedade, nosso destino final.
Passa muito rápido. Passa muito lento!
Olhando para trás, há um chão de dias percorridos, um passado que não volta mais. Um lugar pisado, que jamais voltarei a pisar como era, mas que é chão talhado que espera o meu mais novo pisar.
Muita coisa foi vivida para dar sentido a essa vida que vivemos aqui. Muita coisa tivemos que deixar de viver, para estarmos aqui. Trinta e cinco dias longe de casa, filho, esposa, afazeres...
É um paradoxo, mas só com a familia muito perto de mim é que consigo estar tanto tempo longe deles!
Esse meu longe é a minha caverna, que desde a minha tenra juventude é o lugar em que, de tempos em tempos, necessito me refugiar.
Desde a minha primeira caminhada, em 1989, até o dia de hoje, vez ou outra, preciso de um momento recluso, na minha mais completa liberdade, para me fortalecer, reciclar e reestabelecer meus limites, que hora se expandem, hora se encolhem, como o fluxo das marés, como o pulsar do meu próprio coração!
Hj chegam a Marcinha e a Luiza, que ainda não conheço. Elas vão caminhar esses últimos dias conosco.
Tem mais gente para chegar!
Engraçado pensar que este meu caminhar, as vezes quixotesco, sem sentido, atrapalhado, ainda agrega.
Acho que tem mais gente, que como eu,
perambula por este mundo, buscando caminhos, rumos e principalmente, gente com quem caminhar.
26° dia: Ouro Preto a Mariana - 06/09/2018
Dia nublado, embora fizesse um sol escaldante e um céu azul.
A caminhada entre Ouro Preto e Mariana se dá por uma estrada passando por Passagem de Mariana. Uma estradinha vicinal tira o caminho um pouco do trânsito. Fizeram uma pista para bike e caminhada, que não existia à época da demarcação da Estrada Real, eu não conhecia, ainda, mas aprovei totalmente.
Ano passado, quando passamos por essa região, fizemos o caminho por uma trilha muito bacana, mas eu não saberia fazê-la sem um guia local, ainda mais conduzindo um grupo de caminhantes.
Chegamos bem cedo, deixamos o grupo no hotel e fomos equacionar a estadia das éguas. O Padre Geraldo havia arrumado um local para os animais e também para nós. Quando chegamos, avaliamos que não era seguro para os cavalos. Além de pequeno, o local oferecia riscos de acidentes que poderiam inviabilizar a continuidade dos animais na nossa caminhada. Falamos com o Padre. Ele ajudou a arrumar um outro local, do outro lado da cidade. Como hj é o dia da troca dos motoristas do carro de apoio, o Paulo volta com o carro para Belo Horizonte e o Olavo retorna amanhã, pela manhã, tivemos que mudar nosso local de pouso para facilitar nossa logística de amanhã, sem o carro. Agradecemos a acolhida e justificamos a alteração do nosso local de repouso! Pedimos ao Padre para nos explicar com o Senhor Enoch, que nos hospedaria, mas iriamos ficar muito distantes dos cavalos e sem carro.
Com todas essas questões a serem resolvidas, acabamos por conseguir um banho e sair para comer quase as 18 horas. Dia longo!
Embora fizesse um sol escaldante e um céu azul, estava um dia nublado!
Eu estava nublado, num dia de sol e céu azul!
Difícil essa minha labuta aqui.
Sou parte ruim de uma humanidade, que talvez fosse para ser boa.
Tanto aprendizado que não consegui aprender!
Sigo por este caminhos, ainda feliz, as vezes triste, ora alegre! Mendigando migalhas do que nem preciso.
Sigo buscando o que não irei encontrar.
Sigo encontrando o meu eu feio , meu eu que queria saber tranformar.
Talvéz, aqui, me transforme em eu mesmo. Talvéz me veja mais humano, muito mais do que imaginava ser.
Assusta-me não ter aprendido, o tanto que tive oportunidade de aprender.
Vou caminhando e o eu refletido neste meu caminhar é pura e simplesmente eu mesmo, um humano do meu tempo, um humano perdido em um tempo perdido. Um humano entristecido, brutalizado e envergonhado pelo que venho me tornando. Caminho num fio de esperança. A Paz que sonho aqui, ainda é pomba branca que busco vislumbrar no horizonte.
Ainda assim, sou humano construindo o meu tempo. Que eu não me transforme naquilo que repudio, que eu não me descubra tão parecido com o que não queria ser.
Que o homem nublado que
amanhecí, não encubra o sol e nem escureça o Céu, que antes, seja ao contário!
27° dia: Mariana a Antônio Pereira - 07/09/20188
Estamos em Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, mais parecendo pertencer a Mariana, bem pertinho da represa de Fundão. A Represa de Fundão é aquela, da Samarco, que rompeu e levou consigo, Bento Rodrigues e pedaços de outros lugarejos e cidades. Tudo arrastado pelos leitos de rios e riachos, até chegar ao Rio Doce. Matou Bento Rodrigues e toda uma bacia hidrográfica, da nascente à foz!
Acidente que nada mais é do que crime!
Tudo enrolado e mal explicado ate hj, em que juram não oferecer mais riscos, mas todo mundo testemunha a quantidade imensa de caminhões de pedras, passando dias a fio, para estabilizar a barragem, ainda em risco.
Os rejeitos derramados nos rios não tinham agentes contaminantes, mas eu mesmo vi todas as árvore mortas, ao longo do Rio Gualaxo.
Crimes ambientais, que tendem a ficar pequenos, frente a nossa necessidade, maior, de levarmos dinheiro para casa!
A sobrevivência capitalista acaba por justificar esses disparates, pelo menos até a próxima comoção coletiva por um outro, e certo, acidente/crime!
A morte do outro é dura, mas faz parte desse meu jogo podre! A minha morte fará parte desse jogo podre de todo mundo! E essa é a vida que todos nós vamos levando, e não é por comodismo, é puramente porque pagaram o nosso preço!
Eita Salário suado de cada mês!
Bom, por conta desse desastre aqui, com Bento Rodrigues teremos dois dias de asfalto. Hj caminhamos uns 13 kms, de Mariana até aqui. Amanhã, teremos 30 kms, até Morro da Água Quente. Depois de amanhã terminamos de chegar em Catas Altas e caminharemos apenas 7 km. Bom que descansaremos um pouco naquele paraíso de lugar.
Desafios de cada dia! Equacionar esses melindres dá trabalho. Driblar longas quilometragens, infraestrutura precária, feriados no meio da caminhada, tudo isso gastou planejamento. Essa é a Romaria 2018. 35 dias! Ano passado tivemos 37 dias para percorrer a mesma quilometragem, em sentido contrário.
Mesma quilometragem, mesmos lugares, mas, jamais, o mesmo caminho.
Essa caminhada é única. Qualquer outra configuração para percorrer o Crer será outro caminho. Nosso caminho não se propõe ser melhor ou pior que outros. Ele é único, propondo caminhar em 35 dias este longo percurso, que pode ser percorrido no tempo e no formato que se tiver disponível para isso. Nossas histórias, aqui, não se repetirão nem se fizermos mil vezes esse mesmo caminho.
Aqui é a vida em sintese!
Pena que o Tunico não conseguiu vir caminhar com a gente. Em uma semana estaremos na Serra da Piedade, em uma semana estaremos em casa.
Mas ainda estamos aqui!
28° dia: Antônio Pereira a Morro D'água Quente - 08/09/2018
Trinta e três quilômetros em asfalto. Sol quente, céu limpo e muitas subidas e descidas. Estrada sem acostamento e carretas carregadas de minério e pedras, nos dois sentidos. Serra do Caraça ao fundo, rodeada de outras serras, carcomidas pela extração mineral. Aonde a vista alcança, é só serra minerada!
Em certo ponto do trecho, margeamos o complexo de represas cujo rompimento
arrastou Bento Rodrigues, Rio Doce afora.
Cenário ainda impactante, mesmo quase três anos depois!
Mas, mesmo com tudo o que se vê, a sensação de normalidade, enoja, como se o ocorrido tivesse sido assimilado e fosse parte de um passado distante. Como se o desastre, que foi crime, fizesse parte desse sistema, que mesmo nos matando, não tem como ir contra ele!
Resignação que não quero que caiba no meu peito!
Na estrada os carros, ônibus e caminhões, poucos, diminuem a velocidade quando passam por nós.
Lembro-me do meu pai dizendo que nesta vida, nenhuma vantagem que se tenha sobre o outro, deve servir para oprimir e subjugar. São, sim, instrumentos que nos distinguem enquanto quem tem obrigação de cuidar, amparar e nos colocar a serviço dos que não tem os mesmos potenciais que os nossos.
Se sou mais forte é para proteger. Se tenho mais conhecimentos é para gerar mais oportunidades. Se tenho mais poder é para fazer a melhor gestão e a melhor justiça.
Num determinado grupo, a escolha de se chegar juntos pertence a quem pode chegar primeiro!
O poder pelo poder é solitário e vazio.
Na estrada, caminhões e ônibus deveriam proteger os carros, carros protegerem os ciclistas e estes terem cuidado com os pedestres.
Escutamos com frequência que um cavalo ou um boi, não tem conciência da força que possuem. Um motorista, num caminhão, ônibus ou carro, compartilha da mesma irracional insconciência.
Nossa força, qualquer que seja ela, é objeto de opressão. Nossa vantagem, nada mais é do que a nossa vantagem!
Buenas!
29° dia: Morro D'água Quente a Catas Altas - 09/09/2018
Hj foi um dia de descanso. Após o longo asfalto de ontem, caminhamos apenas 7 km até Catas Altas. Estou hospedado na casa do Padre Armando.
Hj não foi um dia livre, mas esta sendo um dia de curtir nossas liberdades. Acordamos mais tarde, caminhamos pouco, almoçamos e estamos de pernas para o ar. Esta semana é a arrancada final!
Por falar em liberdade, esse é um tema muito em uso nesse nosso tempo! A verdade é que nossa humanidade nunca viveu, pelo menos na história que se tem registro, um momento de tamanha possibilidade de expressão, como este. Cada minoria (de raça, de credo, de genero, etc..) e cada indivíduo, tem buscado seu modo de expressão, tolhido por diversas dominancias, ao longo do tempo.
Um pássaro, solto em qualquer espaço, embora livre, é preso pela sua adaptabilidade ao ambiente, ao território e á sua missão no sistema ao qual esta inserido. Um pássaro que é adaptado para viver a beira mar, não consegue viver e comer nas montanhas. Os que vivem em regiões frias, sucumbem ao calor. Os que comem determinadas sementes, não conseguirão se alimenfar de outras.
Um passarinho solto em um quintal ou praça, tem um limite de território , se ele se aventurar em território alheio, será rechassado por outros da sua mesma espécie. E cada pássaro solto, tem um script de vida, onde contribui com suas aptidões para um equilibrio natural. E esse equilibrio natural, em última instância, é mantido com o sacrifício do próprio pássaro que sucumbindo, é alimento de outros seres, nessa perfeição que chamamos Natureza! E isso não acontece só com os pássaros, mas com todos os seres vivos, animais e vejetais. Esse é o perfeito equilibrio da Natureza!
Gosto dessa reflexão sobre liberdade.
Esses gritos, dos excluídos, que agora se incluem, ecoam mundo afora.
Quiçá fossem de todos os povos, mas ainda existem opressões atrozes em diversos pontos do nosso planeta. Intolerâncias religiosas, discriminações por generos e ate trabalho escravo. E pasmem, Existe comércio de escravos humanos em países como a Líbia, nos mesmos moldes dos XVI e XVII.
Mas liberdade, gritada e ecoada, não deve me distinguir, senão me fazer pertencer.
Liberdade é amarra que me une ao outro, jamais me afasta dele. Liberdade é consciência do limite , é exercício de respeito. Liberdade, entendida diferente disso, é prisão torpe. Liberdade entoada diferente disso, não me liberta, me faz algoz!
O Homem é livre quando liberta!
Amanhã nosso batente volta ao normal
30° dia: Catas Altas a Santa Bárbara - 10/09/2018
Caminhamos de Catas Altas para Santa Bárbara. Vinte e cinco quilômetros sob um forte sol e bastante calor.
A sinalização neste trecho é algo completamente sem nexo! Marcos da Estrada Real e Crer, que durante o percurso entre Aparecida e Piedade, não trabalham juntos, aqui são uma piada, sinalizam direções opostas para o mesmo lugar, lado a lado mandam para lugares diferentes e por ai vai.
O pessoal local já nos orienta a não seguir os marcos!
Ainda bem que sei o caminho!
Chegamos pouco antes das 16 horas e fomos comer, pois o restaurante só estava nos esperando. A comida da Cristina é ótima, como neste lugar desde a época da demarcação da Estrada Real. E a Cristina é uma simpatia!
Após comermos deixamos o povo do grupo no hotel e fomos procurar o Padre Elias, que nos acolhe por esta noite. Eu e o Douglas dormiremos num alojamento da Igreja e o Olavo, que mora em Barão de Cocais, hj, dorme em casa.
Eu só dormirei em casa no próximo sábado, 35 dias depois de ter dormido a última vez!
Desde ontem estamos com a companhia da Izabel. O Tarol chegou agora a tarde para ajudar no apoio, até o final. E estamos aguardando a Tatiana, que deve começar a caminhar amanhã.
Tem dias em que se está mais cansado do que em outros. Hoje quero dormir, quieto!
Esta caminhada, especificamente, representa muitas mudanças para mim, talvés, a proximidade do fim, me roube mais energia. Fim de fantasia, de período sabatico. Vontade de me encolher e dormir! vontade de terminar aqui e explodir! Estes opostos que me habitam o âmago, são minha força de prosseguir.
Ainda bem que sou oito ou oitenta.
Ainda bem que sou oito e sou oitenta!
Pequeno e grande me enchem a alma, onde início e fim, sempre são o mesmo lugar!