06/02/2026
Festa canibalística tupinambá. Desenho de Theodoro de Bry 1557-1595, baseado nos relatos Hans Staden no Brasil (1557)
O Canibalismo é o ato ou prática de comer membros de sua própria espécie. Era um ritual para as tribos Indígenas da costa Brasileira . O termo se aplica a qualquer animal, embora o termo seja usado frequentemente para se referir ao homem canibal que come outro ser humano. O inimigo capturado vivo era conduzido à aldeia dos vencedores e ali mantido prisioneiro durante um período no qual todas as honras e privilégios lhe eram concedidos, era designado uma mulher para lhe fazer companhia e os melhores alimentos eram colocados a sua disposição. A execução, com violento golpe de borduna, cabia a quem o houvesse capturado, podendo ser por este transferido a alguém merecedor de tal obséquio, gentileza ou gratidão em sinal de agradecimento ou homenagem.
Ao prisioneiro, competia manter-se altivo e valente, retrucando as provocações e insultos numa demonstração de total indiferença ante o fim próximo. O executor ganhava, então, direito ao uso de mais um nome, e seu corpo era incisado de modo indelével, para que se perpetuassem a sua coragem e o seu valor. Dessa forma, acreditavam que, ao comer a carne de um inimigo guerreiro, iriam assim adquirir o seu poder, seus conhecimentos e as suas qualidades
O ritual antropofágico segue a lógica da guerra tupi: vingança, aprisionamento e sacrifício. Estas sociedades eram estruturadas em função da guerra, essas tribos desenvolveram uma escala de estratif**ação social em que a aquisição de status baseava-se fundamentalmente na capacidade de perseguir e matar o maior número possível de inimigos.
Europeus com o infortúnio de serem apanhados em situação desvantajosa por uma tribo antropófaga não amigável, eram por vezes vitimizados, como o primeiro bispo do Brasil, Pero Sardinha.
Além do caráter ritual, a ingestão da carne do inimigo era também considerada a mais completa forma de vingança, como pode ser visto no trecho abaixo, escrito por Hans Staden, no século XVI:
"Fazem isto, não para matar a fome, mas por hostilidade, por grande ódio, e quando na guerra escaramuçam uns com os outros, gritam entre si, cheios de fúria: "Debe marãpá Xe remiu ram bengué, sobre ti caia toda desgraça, tu és meu pasto. Nde acanga jucá aipotá curi ne, quero ainda hoje moer-te a cabeça. Xe anama poepica que Xe aju, aqui estou para vingar em ti a morte dos meus amigos. Nde rôo, Xe mocaen será ar eima riré etc., tua carne hoje ainda, antes que o sol se deite, deve ser meu manjar". Isto tudo fazem por imensa hostilidade."
Entres os Tupis, o ritual antropofágico não existia sem a guerra movida por honra e vingança. Então, acabar com as guerras intertribais seria condição para impor-lhes a religião católica pelos portugueses.
O ano de 1558 foi um marco da guerra à antropofagia, com a chegada de Mem de Sá ao Brasil. O terceiro governador-geral foi o principal responsável pelo combate ao costume indígena de comer carne humana, que tanto abominava os jesuítas e dificultava a catequização, com a criação dos aldeamentos jesuitas e leis proibindo as guerras entre os grupos tupis sem autorização do Governador
Simão de Vasconcellos conta que o alvoroço foi grande. Colonos portugueses, e indígenas chegaram a acusar o padre Manoel da Nóbrega de ser o responsável pelas medidas para eliminar os “antigos costumes”. Mas o governador Mem de Sá prosseguiu com a missão dada pelo rei e, assim, “os bárbaros [da Bahia]” foram reduzidos “a quatro poderosas aldeas, de S. Paulo, de Santiago, S. João, e Espirito Santo”
Fonte: Páginas de História do Brasil. De Serafim Leite. 1923/ Presença do passado no Brasil imperial: a tela Nóbrega e seus companheiros (1843)