30/03/2022
Eu vi a Matinta*
Naquele tempo, Trubulhu** estudava o ensino médio no Sistema Modular.
Toda noite, quando saía da aula, ele ficava na praça Nossa Senhora do Carmo até tarde noite.
Para quem lembra, no meio da praça, havia uma espécie de palco, e o pessoal costumava ficar até altas horas da madrugada por lá.
Depois que o Paralá desligava o motor da Força e Luz, quem ainda estivesse pela praça, se juntava num único lugar, uns por medo, outros pra contar mentiras, fazer fofoca ou tocar e cantar. Uns bebiam suas cachaças, outros fumavam suas birras, uns saíam pra roubar galinha, outros já estavam voltando com um pato. Quem tinha namorada, namorava, quem não tinha... : cada um na sua.
O Cambueiro era o cantor mais irreverente e o violão, geralmente, ficava por conta do Mundinho do Cipó ou do Surica.
Numa dessas noites, noite de lua cheia, por sinal, após todo mundo capar o gato, Trubulhu desceu pro rumo da sua casa.
Sua rota era descendo a rua São Benedito, sentido quem vai para o Igapó.
Na esquina dessa rua com a rua Nossa Senhora do Carmo, havia o famoso banco da Dona Júlia.
Assim que Trubulhu virou a esquina da igreja, avistou um enorme pássaro branco levantando voo do dito banco
Não era um pássaro comum, era grande, tão grande que as batidas de suas asas levantaram uma nuvem de poeira que a lua revelava perfeitamente.
Aquilo lhe causou muito medo, mas lembrou que seus avós sempre diziam: se alguém vir uma visagem, deve encará-la. Fugir é a pior opção, pois se a visagem perceber seu medo, ela irá atrás de você e a surra não seria pequena.
Lembrando desse conselho, Trubulhu seguiu viagem.
Um pouco antes de chegar à esquina, mais ou menos onde hoje é a casa do Levi, havia uma casa de madeira, daquelas de assoalho uma pouco alto, algo em torno de meio metro a 80cm, acho que era a casa da Dona Mondó.
Em frente a essa casa, havia um pé de castanhola, que sombreava a fachada e de onde vinha uma voz que lhe chamava.
Naquelas alturas, já havia uma concentração bastante numerosa de pessoas em torno do banco da Dona Júlia e o Trubulhu, ao ouvir aquela voz se aproximou da casa e reconheceu a mulher que o chamara.
_ Se perguntarem se você encontrou alguém, diga que não. Disse ela.
A primeira coisa que lhe veio à mente foi que deveria ter acontecido alguma briga, alguma mulher flagrou essa senhora com seu marido. Pensou ele.
Meio atordoado, sem saber o que estava acontecendo, garantiu que não falaria nada.
Ele se despediu dela e seguiu rumo à multidão que ainda permanecia na esquina.
Ao chegar mais próximo, começou a reconhecer cada um dos que ali estavam: a Galera do Igapó estava praticamente toda lá, estavam também os filhos da Mirica com o João Neném, as filhas do seu Jorge Leite, quase todas, o pessoal do Zarito, do Paralá, da Dona Candinha, entre outros.
Quando o pessoal o reconheceu, veio logo a pergunta certeira:
_Trubulhu, tu encontrou alguém aí pra frente?
_Não.
_Uma Matinta-Pereira acabou de se transformar embaixo desse banco. Alguém falou.
Um filme passou na cabeça dele. Ele sabia quem era, pois tinha acabado de falar com ela.
Agora, ele não sabia se contava ou não. Se contasse, estaria descumprindo o que prometera e poderia ser castigado pela Matinta.
Reafirmou que não viu ninguém e ficaram por mais algum tempo conversando, até que o pessoal começou a entrar cada qual para sua casa.
Despediu se de quem ainda estava por lá e seguiu.
Tudo parecia ter voltado à normalidade, mas para a sua surpresa, antes de chegar à próxima esquina, alguém com passos apressados e com voz ofegante o alcançou e perguntou:
_E aí? O que te perguntaram? O que tu falou?
Ele imediatamente olhou para trás e reconheceu. Era a mesma mulher que estava embaixo do Jirau e que lhe havia feito o pedido para dizer que não encontrara ninguém.
Que p***a é essa? Pensou consigo. O espaço entre uma esquina e outra não era tão longo. Além disso, uma ou duas pessoas ainda ficaram lá pelo banco da Dona Júlia. Como essa mulher passou sem ser notada? Como ela conseguiu me alcançar tão depressa? Continuava em pensamento.
_Disse que não encontrei ninguém! Respondeu.
_O que mais falaram? Perguntou ela.
_Disseram que tinha uma Matinta-Pereira se transformando embaixo do banco. Respondeu Trubulhu.
Ela silenciou.
Os dois moravam na mesma rua, ela um pouco antes. Ele então perdeu o medo e os dois seguiram caminhando rumo às suas casas e conversando assuntos diversos.
Ao chegar à casa dela, despediram-se e Trubulhu seguiu em frente.
No caminho, ele tentava entender o que havia acontecido. Que pássaro era aquele? Seria realmente a Matinta-Pereira? Mas nos livros de mitos e lendas elas não são assim.
A imagem que ele tinha na mente era de uma velha enrugada, desdentada e não de um belo pássaro branco.
Dizem que ela é má. Pensou consigo, mas não me fez nenhum mal. Por outro lado, eu também não mexi com ela, não quebrei a promessa que fiz. Talvez por isso ela não fez nada comigo.
Pensava em correr, pra chegar em casa mais depressa, mas lembrava dos ensinamentos dos avós: se fugir é pior. Ela vai atrás. Pensava em olhar para trás, mas não tinha coragem.
Muita coisa passava por sua cabeça. Nada se encaixava, nada fazia sentido. Aquela mulher não parecia ser Matinta-Pereira.
Em meio a toda essa confusão ele conseguiu chegar a sua casa, mas antes que conseguisse entrar, ouviu três assovios fortes que arrepiaram seu corpo todo:
_Fííííííííííííííte!
Agora ele não tinha mais dúvidas. Ele, realmente, havia visto a Matinta.
*Caso baseado em fatos reais ocorridos na Vila do Carmo do Tocantins na década de 90.
**personagens fictícios criados para homenagear moradores da Vila com apelidos inusitados.
Prof. Rosemiro Laredo Fiel