14/05/2026
"Duas longas orelhas ficariam melhor, como símbolo da nossa nacionalidade, do que o lema ‘Ordem e Progresso’, inscrito em nossa bandeira."
AFONSO ARINOS
Os tropeiros eram responsáveis pelo transporte de mercadorias e animais (principalmente gado e mulas) pelo interior do Brasil. Atuavam antes das ferrovias, sendo essenciais para ligar regiões afastadas. Foram fundamentais na integração econômica e territorial do país. Entretanto, acabaram esquecidos pela história oficial, com a implantação da república e sua ânsia modernizante, de esquecer o “Brasil Velho”.
Existiam longas rotas terrestres que ligavam o Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Destacam-se os caminhos que levavam:
- do Rio Grande do Sul e Paraná até Minas Gerais (mineração).
- do interior até portos e cidades importantes.
Essas rotas deram origem a vilas, cidades e pousos ao longo do caminho. Como foi o caso da nossa Cunha.
O tropeirismo sustentou atividades como a mineração (levando alimentos e animais), a agricultura e pecuária. Criou uma rede comercial interna, que ajudou a diminuir o isolamento das regiões, superando os arquipélagos regionais do Brasil colonial.
Os tropeiros formaram uma cultura própria. Tinham alimentação típica (como feijão tropeiro); tinham uma linguagem, costumes e modo de vida itinerante e espalharam hábitos culturais entre diferentes regiões do Brasil.
As rotas dos tropeiros contribuíram para a ocupação do interior do país. A definição de caminhos que depois se tornaram estradas. Portanto, foram decisivos na expansão territorial além do litoral.
Declínio do tropeirismo. O sistema começou a perder força com a chegada das ferrovias no século XIX, com a modernização dos transportes. Mesmo assim, seu legado permanece na formação social e econômica do Brasil.
Os tropeiros não eram apenas transportadores, mas agentes fundamentais da construção do Brasil, conectaram regiões, impulsionaram a economia e contribuíram para a formação cultural e territorial do país. A participação deles na história de Cunha foi fundamental. Cunha, o caminho para o mar, a boca para o Sertão, veio a surgir e existiu em função das tropas.
“A tropa de muares, como um sistema de transporte, já organizado, ficou restrita, praticamente, a determinada área do território nacional, ou mais precisamente, à parte central do Brasil. [...] As regiões da mineração e da lavoura de café se ofereceram em regiões localizadas serra acima, em zonas interiorizadas e prenhes de abruptas e extensas elevações rochosas. Na época, o único meio de transporte capaz de superar os obstáculos naturais existentes entre a parte central do Brasil e o mar era o muar; e não havia outro sistema de transporte que, por vez, pudesse atender convenientemente às exigências das populações daquelas regiões, que não a tropa de muares.
Acompanhando o desenvolvimento da mineração, do ponto de vista geográfico, e consequente surgimento de nódulos populacionais que a pouco e pouco iam nascendo, como cogumelos, na direção do Oeste, a tropa também foi estendendo sua área de ação que, com a posterior dilatação da lavoura, chegou a proporções enormes.”
José Alípio Goulart – “Tropas e tropeiros na formação do Brasil”