20/11/2022
Joalheria Roberti & Pelosi (1910) – Reclame de uma das mais tradicionais e longevas joalherias da cidade de Manaus, a célebre ‘Roberti & Pelosi’, sociedade dos imigrantes italianos Giulio di Cesare Roberti e Vincenzo Pelosi - um deles visto no balcão da loja, posando para o fotógrafo - outrora localizada no antigo nº 64 da Rua Municipal (atual Avenida Sete de Setembro), quase na esquina com a Avenida Eduardo Ribeiro. O endereço comercial, fundado nos anos finais do século XIX, era uma casa fina e sortida, que - além de jóias belíssimas, algumas delas manufaturadas pelos próprios proprietários, também ourives – fazia às vezes também de relojoaria e “luneteria” (ótica); e, como se pode ver do anúncio de época, comercializava artigos exclusivos nos três setores do chamado “comércio de luxo”. Além de jóias, relógios e óculos, a casa também se anunciava como representante dos automóveis das marcas Fiat e Isota-Fraschinni (italianos), dos pneumáticos Michelin (franceses) e dos pianos Richard Lipp & Sohn, de Stuttgart (Alemanha); e também de objetos de decoração em ‘electro-plate’ (prataria banhada a níquel) e bronze.
Por décadas a fio, até os anos 1940, a Roberti & Pelosi se manteve como uma das líderes desse segmento em Manaus, somente encontrando rivais à altura na pessoa dos irmãos Lévy, judeus franceses, donos da igualmente famosa joalheria-relojoaria- luneteria ‘À La Ville de Paris’, localizada mais abaixo, no nº 55 da mesma Rua Municipal, esquina com a Rua Lobo D´Almada.
Premiada com duas medalhas de prata na Exposição Nacional do Rio de Janeiro, em 1908, pela excelência dos produtos apresentados naquela feira de amostras, a casa veria seu prestígio aumentado ao final da década de 1920, quando Roberti e Pelosi são comissionados pelo governo Ephigenio Salles (1926-1929) para fazer a montagem do maquinário suíço do Relógio Municipal, à Praça da Matriz, inaugurado em 1929. Giulio Roberti, inclusive, foi também cônsul da Itália, por muitos anos, e era pessoa das mais respeitadas nos altos círculos sociais, assim como seu sócio Pelosi.
Nada disso foi suficiente, todavia, para a impedir a indignidade que os sócios ítalo-amazonenses sofreriam por ocasião dos acontecimentos da II Guerra Mundial, quando foram vítimas das hostilidades generalizadas dirigidas aos alemães, italianos e japoneses (as nações inimigas, componentes do ‘Eixo’ nazi-fascista), no rebojo da entrada do Brasil na guerra, em 1942, logo após o torpedeamento de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães, ao largo do litoral da Bahia. Na fúria cega que se seguiu ao anúncio desse desastre, a famosa joalheria foi um dos alvos preferenciais da multidão que saiu às ruas de Manaus (assim como de outras cidades do país), tomada de ódio contra os estrangeiros. A turba ensandecida por pouco não depredou a loja (salva a tempo pela pronta intervenção da Polícia) e não linchou os senhores Roberti e Pelosi, refugiados e acolhidos na casa dos padres "capuchinhos" da Igreja de São Sebastião até que tudo se acalmasse. Passada a tempestade, todavia, o estrago já estava feito. Desgostosos com as humilhações de que foram vítimas, depois de tantos anos de suas vidas dedicados ao Amazonas, ambos logo deixariam a cidade para nunca mais voltar, tendo passado seu fundo de comércio a terceiros, que ainda continuaram o negócio até o início da década de 60, sem o mesmo brilho nem o sucesso de outrora, todavia.
Fonte: Manaus Sorriso – Foto: Indicador Comercial Ilustrado de 1910.