29/05/2019
Tenho um monte de coisas pra ensinar pra você, no caso de não nos vermos mais, sobre a mensagem que foi transmitida pra mim, sentado debaixo um pinheiro num dia frio de outono.
Escute.
O tempo que me habita não é o tempo das coisas. As coisas, elas têm um tempo próprio. Elas começam e acabam e transformam a gente nesse durante, num ritmo que é delas – e isso aí vira o nosso tempo. Mas as coisas, elas são como as estações do ano. Por exemplo, eu me pergunto como as árvores conseguem superar os invernos. Você não? Você nunca se espanta? Olhando pra elas lá, firmes, imperiosas, isoladas, nuas?
Admiro a paciência do carvalho, a impassividade do pinheiro. Elas têm a compreensão profunda da hora certa, a paciência da espera para as coisas com hora marcada. É que as árvores vivem a eternidade do tempo certo. Elas não têm nem antes nem depois: são somente o agora. Já eu… eu não. Ao contrário de mim, as árvores não têm vontade. Você já viu uma árvore ansiosa? Uma árvore em crise de pânico?
Como seria possível para nós, filhos do acaso, saber a precisão do tempo de cada coisa? Como acertar o tempo certo, com a exatidão da folha, que se recolhe, impassível, na espera de desabrochar com mais beleza? Esse instinto de relógio cuco não me pertence – desses que não atrasam um segundo e vêm com um pássaro impiedoso para não perder uma chance de me lembrar que tudo tem um tempo próprio: o amor, a solidão, o s**o, o riso.
Seria possível conviver em paz com o que está sempre se esgotando?
Olhar o presente de frente é saber que só ele existe. É viver na finitude, no que escorre pelos dedos. Viver com isso tudo na sua cara exige a franqueza das crianças e dos estúpidos. Porque você vai cair na tentação de esquecer que tudo, absolutamente tudo, acaba. Você, assim como eu, vai se perder nas bobagens do dia a dia ou transformar a agilidade da moça do mercado em uma pedra filosofal capaz de determinar o sucesso ou fracasso da sua existência – e resumir isso tudo apenas numa atitude inadequada e mal direcionada, para não apontar tantos dedos... Porque é perturbador lembrar o tempo todo que tudo, absolutamente tudo, passa.
Menos o tempo das coisas.
Por isso, veja bem, a importância do tempo das coisas, você me entende? Não dá pra acelerar ou deixar pra trás o ritmo dos sentimentos sem se tornar um hipócrita, um cretino ou cínico. Eles, como as coisas, têm o tempo que tem que ter e não dependem mais de mim ou de você ou de ninguém. Mesmo que pareça impossível concentrar no corpo a calma das árvores, o tempo das coisas acontece em nós. Justo em nós, que ficamos sempre perplexos pelas dissonâncias do que nos acontece. Justo em nós, que olhamos assombrados para o nada, nosso destino, nosso fim. Justo em nós, que precisamos transformar em nosso o tempo do outro… sem jamais esquecer que ele é do outro.
Aí você me pergunta: e você?
E eu? Eu tenho que aprender a me demorar mais. A me demorar mais em você, e nas coisas. Precisamos de mais tempo. Não sou só eu que me perco na duração do instante. É que as palavras – e junto com elas os sentimentos – se encontram e se combinam de forma abrupta na trama dos eventos, eu acho que só para determinar algumas escolhas.
Por isso, eu preciso encontrar uma forma de conquistar a impassividade do pinheiro que sabe de cor a hora certa de cada pinha. Eu sou sempre antes, sempre cedo demais e, quando eu me dou conta, já é tarde demais. Aí o que me resta é perambular pelas dobras do tempo, quando ele deixa de ser linear, e se dobra em mim, na minha dor, na minha incapacidade em apreender o ritmo do mundo. Nessa hora ele habita o pensamento e o sonho, ali se vive tudo ao mesmo tempo – nesse espaço impossível – o antes, o depois e o agora. Não importa a ordem. Será que é assim que a gente abandona o que já foi sem se lançar, como uma flecha, ao abismo que é o futuro?
Não sei. Você sabe?
(Ditado há uns dois ou três anos, debaixo de um pinheiro na margem do Lago Nordenskjold. Sonhado esta manhã, de novo.)