Viagem pelo sertão do Rio Grande - 2014

Viagem pelo sertão do Rio Grande - 2014 Passeios e pontos turísticos

Pelos cálculos de Willian, fizemos aproximadamente: Ida: 505km do percurso principal + 12km (entrada no Negros do Riacho...
24/02/2014

Pelos cálculos de Willian, fizemos aproximadamente:

Ida: 505km do percurso principal + 12km (entrada no Negros do Riacho) = 517 km

Volta: Aprox. 510km do percurso principal + 8km (ida e volta para a antiga São Rafael) = 518km

Somando tudo teremos aproximadamente 1.037km, com margem de erro, aproximadamente também, na ordem de 15 a 25 km.

Passamos ao largo de João Câmara. Boca da Mata, hoje vale do Ceará-Mirim. A casa- grande do Guaporé, um tempo desses ocu...
24/02/2014

Passamos ao largo de João Câmara. Boca da Mata, hoje vale do Ceará-Mirim. A casa- grande do Guaporé, um tempo desses ocupada por uma família, que não era do barão de Ceará-Mirim, despossuída de bens, de teto e de não sei mais o quê. Agora o casarão é que é despossuído de gente e de memórias. As paredes ainda estão lá, as portas pintadas imitando novo. Talvez apenas os fantasmas de Nilo Pereira arrastem os passos pela casa nesse cocoruto discreto do vale.
Da viagem de mais de mil quilômetros, não deixamos nada além desses rabiscos e de algumas fotografias. Temos pressa. Queremos ver muitas paisagens, devoramos toda essa geografia como um beiju que acabou de sair do forno.

O vulcão do Cabugi continua lá, sem se mover, em silêncio. O céu é o seu contraste. Os tons e os desenhos se fazem e des...
24/02/2014

O vulcão do Cabugi continua lá, sem se mover, em silêncio. O céu é o seu contraste. Os tons e os desenhos se fazem e desfazem em torno do colosso.
Os postes e os linhões de energia elétrica transportam um progresso invisível. Muita gente por esses caminhos tem alguma coisa de comer, mas não têm o de beber. Caminhões-pipa vindos da Lagoa do Bonfim são apenas gotas para as necessidades humanas. As plantas também pedem água. Nenhum grão germina na rocha iridescente. Verde, apenas as algarobas piratas, os sempre-vivos juazeiros. Lavoura de fogo, pés de lenha na paisagem, colhidas prontamente pelas cerâmicas de Assu. Nas zonas urbanas dessas pequenas cidades, a agricultura que prospera: plantações de sacos plásticos no arame farpado nas margens da estrada.

Agora São Rafael reaparece. As pessoas voltam ao local, caminham cuidadosamente sobre os tijolos, identificam alguns pon...
24/02/2014

Agora São Rafael reaparece. As pessoas voltam ao local, caminham cuidadosamente sobre os tijolos, identificam alguns pontos: olhe, ali era a estação de trem, veja os trilhos, ali era a praça, o colégio, acolá a cadeia, aqui a padaria, ali o cemitério. Alguém disse que no cemitério estão aparecendo pontas de ossos. De fato, agora, a cidade toda é um cemitério à mostra. Toda a cidade é um cemitério. Um cemitério de si mesma.
Há 30 anos, aqui onde essa tilápia com pirão é comida por essas bocas em torno de uma mesa, outras pessoas caminharam. Há montes de tijolos, uns tijolos grandes e lodosos, que serão reaproveitados. As pedras de São Rafael irão calçar outras cidades.

Saímos da BR 304. Indicação: depois de Açu, pegue a estrada à direita e nos primeiros metros depois da curva você sentir...
24/02/2014

Saímos da BR 304. Indicação: depois de Açu, pegue a estrada à direita e nos primeiros metros depois da curva você sentirá forte cheiro de carniça. É ali a estrada para São Rafael. A seca de dois anos baixou as águas da represa Armando Ribeiro Gonçalves e então São Rafael reapareceu. A água recuou e deixou à mostra uns duzentos metros de solo da cidade submersa. Agora podem ser vistos não apenas a ponta da torre da igreja, o campanário sem sino que esteve do lado de fora da água esses anos todos, até que se partiu e afundou. Contaram que alguém chorou.

Em Mossoró, junto do muro de uma fábrica e nas vizinhanças de um posto de gasolina, estão postadas as estátuas gigantes ...
24/02/2014

Em Mossoró, junto do muro de uma fábrica e nas vizinhanças de um posto de gasolina, estão postadas as estátuas gigantes de metal: os três reis magos mostram que, entre todas as oferendas, o vil metal pesa muito mais. O garfo e a faca estão cravados na carcaça do fusca. A mão forte e negra segurando a sonda intergaláctica, com feição de rosa, a mão ferida pelo talo da rosa.

Em Apodi tem suco de cajarana. Perguntei ao garçon porque ele falava como cearense.  Saindo de Apodi, apareceu o zoológi...
24/02/2014

Em Apodi tem suco de cajarana. Perguntei ao garçon porque ele falava como cearense. Saindo de Apodi, apareceu o zoológico de animais (quase escrevi cemitério de animais, prisão de animais nas lápides cintilando ao sol).

Entre Jucurutu e Caraúbas, serras por trás de serras, tons contra tons, cores desmaiando nas curvas. As casinhas brancas...
24/02/2014

Entre Jucurutu e Caraúbas, serras por trás de serras, tons contra tons, cores desmaiando nas curvas. As casinhas brancas silenciosamente depositadas no fundo da co**ha dos vales, como pedras de cal que rolaram e se acomodaram no equilíbrio das dobras do verde. Em canto nenhum, agricultor com enxada na mão, vaqueiro, aboio... Isso ficou para trás, muito pra trás. Só caminhões, circulando alguma carga nas carrocerias.

Aos pés da Santa Cruz, o campo de futebol espera os jogadores. Por todo o percurso, os rios a gente não vê. São apenas s...
24/02/2014

Aos pés da Santa Cruz, o campo de futebol espera os jogadores. Por todo o percurso, os rios a gente não vê. São apenas seus trilhos abandonados, seus leitos de morte. Muitos rios, parece que perderam até o nome. Vamos esquecer que eles existiram se se demorarem mais.
Na paisagem riscada de garranchos secos de jurema e catingueira, o resto é pedra e pó. Depois tomamos uma estrada de chão e cascalho, na direção dos negros do Riacho. Os negros do Riacho, os que conhecemos, não sabem assinar o nome.
Nesse mundo sem chuva, na cidade de Acari Toinho de Quixó sabe encontrar água no solo desacreditado e é capaz de indicar o ponto onde se deve cavar o poço, estimando com muita precisão a profundidade em que a água se esconde. Para tanto, emprega apenas duas pequenas hastes de cobre.

Pinhão, catingueira, jurema, facheiros e cardeiros, nascidos e criados no leito das rochas (a diferença entre cardeiros ...
24/02/2014

Pinhão, catingueira, jurema, facheiros e cardeiros, nascidos e criados no leito das rochas (a diferença entre cardeiros e facheiros aprendi com William Pinheiro, que foi me ensinando coisas pelo caminho, enquanto conduzia o carro na maior parte do itinerário) Muitas casas abandonadas ao longo da estrada, escuras, moradias de ocupantes silenciosos... Em algum ponto desses mais de mil quilômetros houve uma raposa eviscerada, um carcará levantou voo, uma cobra cruzou no nosso caminho, um opala estava parado fora da estrada.

Endereço

Natal, RN
59078-970

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