31/01/2019
O VENTO
Quando eu era menino as árvores pareciam gerar o vento.
Quando as folhas estremeciam suavemente e uma aragem branda percorria o dorso do meu corpo nu, eu achava que eram os ramos e as folhagens que moviam o ar, e faziam a viração e a brisa.
E quando as árvores enfurecidas retorciam-se em bruscos movimentos, elas pareciam criar esse vento bravio destinado a desfolhar ramagens e açoitar venezianas com seu uivo lúgubre de matilhas noturnas.
Certa vez, vi diante de mim uma árvore desabar pesadamente, como se tombasse por ela mesma, pelo esforço de suas contorções, e exausta de tantos vendavais.
Mas a lógica de minha razão-criança desfez-se com o tempo, quando conheci os segredos dos ventos e das marés, dos dias e das noites, da surpreendente semeadura da vida e da brutal realidade da morte.
Se muitos mistérios ficaram ocultos em si mesmos e escaparam do meu saber humano, imunes à minha vã filosofia, algumas verdades foram devassadas por meus olhos frios, meus olhos rasos, meus olhos doces, olhos tristes, olhos fundos, ao longo do caminho aberto por estas minhas mãos indômitas quando golpeiam e matam, por estas minhas mãos tão pródigas quando derramam gestos de ternura.
Sei que o vento vem de si mesmo, vem de além dos mares e das cordilheiras, afaga a geografia do meu corpo, penetra o ventre do meu bairro, volteia praças da minha aldeia, enfuna velas navegantes, varre seu próprio passo levando as folhas mortas do chão e ondula nos cabelos soltos da mulher que passa, na roupagem revolta nos varais, na tênue chama que se esvai e apaga, na dobra dos panos de loucas bandeiras desfraldadas.
O vento irrompe do olho ciclópico dos furacões, nasce do rancor das calmarias, das convulsões oceânicas, do rodopio zonzo dos ciclones, do vômito dos vulcões, do espasmo do caos, das asas do passaredo, dos escombros de tombos glaciais, da enfurecida humilhação de um deserto estéril, da ira hormonal de florestas no cio, do surto indomável dos tsunamis, dos inesgotáveis dilúvios, das chamas que incendeiam o sol, do sopro agônico de Deus.
Talvez fosse simples conhecer os ventos, como o sabem os bichos do céu e da terra, mas não o conhece um meteorologista da obviedade, profeta de chuvas anunciadas, pronto para predizer apenas a rotina de calores e ares invernais.
Para conhecer o vento, bastaria ficar atento ao cheiro do tempo e ao jeito do ar, como fazem os homens primitivos, esses raros animais humanos instintivos, ainda não degenerados por barulhos, odores, visões e sabores que não lhes inutilizaram os sentidos.
Num tempo em que as inteligências da pós-modernidade não desvendam o futuro nem descobrem o passado e apenas voam o vôo delirante do presente fragmentado em minutos, segundos, em átimos revolucionários deste tempo de um admirado e envelhecido mundo novo, ninguém é íntimo do vento, ninguém o conhece, ninguém sabe que ele é o nada que recua, avança, foge e volta sem ser visto porque ele é o ar em movimento, é o espírito da terra, tão invisível como a alma que venta dentro de mim, devastando-me o peito, o pensamento, o coração, a mente e o sentimento.
Vendaval e brisa, tufão e aragem branda, eu sou o vento que passa.