09/09/2024
GRAVE DENÚNCIA ENVOLVE EMPRESÁRIO DE PRAIA GRANDE-SP EM POLÊMICA POSSE DE IMÓVEL, QUE DEVE SEDIAR IML DE SANTOS
Re-post de Marcelo Medrado
Quem passa defronte ao número 122 da rua Bernardo Browne se depara, com o que aparenta, um edifício abandonado. Se ficar ali por alguns minutos chegará a ouvir umas marteladas. Um prédio que já foi matéria em todos os jornais pela proposta de se abrigar naquele local o futuro prédio do Instituto de Criminalística e Instituto Médico Legal. Houve grande movimentação dos vizinhos e ainda se pode ver, em algumas casas, adesivos com a inscrição “IML aqui não! ”
Porém, a realidade sobre o local é outra. Em maio deste ano a Secretaria de Segurança Pública assinou o contrato de locação em definitivo. No contrato, o aluguel pago pelo edifício será de mais de R$42 mil e promete estar funcionando em dezembro deste ano. Contudo, existe muita história, escondida, por trás deste imóvel. Desde a sua construção original pela ELACAP até a compra pelo atual proprietário e contratado pelo estado.
HISTÓRICO
O imóvel tem um histórico interessante quando se analisa a certidão fornecida pelo cartório de registro de imóveis. Construído pela ELACAP foi vendido em 2017 para a DNA Empreendimentos Imobiliários. Em 11 de outubro de 2018 este foi adquirido pela Montreal Tecnology e Logística Eirelli. Que detém sua propriedade até os dias de hoje.
Em rápida pesquisa no sistema da Jucesp pode-se verificar no histórico que, a empresa foi adquirida em 2016 por Mariana Nunes da Silva moradora do bairro Sítio do Campo, segundo a mesma certidão. Até então, nada de estranho nos acontecimentos. Porém, com um olhar mais apurado e um pouco de pesquisa junto aos arquivos da Secretaria de Segurança Pública, consegue-se saber que Mariana tinha à época 19 anos e aos 21 havia comprado um imóvel através da sua empresa no valor de mais de R$2.2 milhões, segundo a certidão do imóvel. Mais, em um boletim de ocorrência elaborado no 2º DP de Praia Grande a mesma aparece reclamando de uma invasão de um outro imóvel na cidade. Segundo a declarante se tratava de um imóvel, terreno situado a avenida Marechal Mallet, cujo o qual sua empresa havia sucedido aquele que se apresenta como testemunha em uma ação de usucapião. Que a ação estava em curso pela Vara da Fazenda Pública da cidade. No boletim a testemunha, Edmundo Berçot Jr, seria quem detinha a posse do terreno por usucapião.
Quanto a empresa locatária do prédio à Secretaria de Segurança Pública, mantinha seu endereço como avenida marechal Mallet 1020 altos sala 04. Mesmo endereço constante no contrato assinado e publicado no Diário Oficial do Estado em 2022. Mesmo tendo sido alterado na Junta Comercial em 2021. No endereço fornecido para o contrato funciona um posto de gasolina. Também no mesmo endereço Mariana mantém uma outra empresa no ramo de lanchonete. Havendo duas empresas do mesmo ramo registradas no local, segundo a Jucesp. Após a assinatura do contrato de locação Mariana Nunes deixa a empresa e seus titulares passam a ser Mariana Almeida Berçot, Sophia Almeida Berçot e tendo como administradora, com direitos a recebíveis, Maria de Lourdes Almeida Berçot.
Contudo, segundo um inquérito sob a responsabilidade da Policia Federal de Santos, Mariana Nunes é balconista de uma papelaria, moradora do bairro Tude Bastos e seu meio de locomoção seria uma bicicleta. Apesar de aparecer como ex-proprietária de uma empresa que possui mais de R$10 milhões em propriedades.
QUEM É?
Edmundo Berçot Jr, já foi o motivo de muitas matérias jornalísticas na Baixada Santista. Nos anos 90, Edmundo assassinou José Pimentel Camargo no município de Socorro, interior do estado, na frente de sua família, por ter perdido a concessão de um cartório. Com isso foi condenado a 14 anos de prisão que inicialmente estaria cumprindo em uma delegacia da cidade de Praia Grande.
Relata o jornalista José Paulo Lanyi ao Observatório da Imprensa: “Certo dia recebi a denúncia de que o ex-presidente do PMDB da Praia Grande Edmundo Berçot Jr., condenado a 14 anos de prisão por homicídio, estava circulando pela cidade, com a anuência de policiais e carcereiros da delegacia-sede de Praia Grande. Inconformado com a perda do direito de explorar um cartório que durante anos ficou nas mãos de sua família, Berçot viajou para assassinar, em Socorro (interior de São Paulo), o empresário que o venceu na concorrência. Ele foi e matou o oficial de cartório José Pimentel Camargo, na frente da família da vítima.
Na apuração, concluí que a denúncia era correta: o condenado zanzava mesmo pela cidade. Fizemos uma campana e registramos duas imagens marcantes que foram veiculadas numa sexta-feira, primeiro no Mar em Manchete, depois no Jornal da Manchete, apresentado pelo Ronaldo Rosas: a primeira mostrava Berçot em um boteco, ao lado da delegacia, abraçado de costas a um carcereiro muito gordo conhecido como ‘Tim Maia’; na segunda, o condenado voltava do bar para a delegacia, sozinho, passos lentos, com um embrulho nas mãos. Assim que ele entrou pela porta principal, o zoom buscou a inscrição da delegacia, que ficou enorme na telinha.
Assim que a reportagem foi exibida no jornal local, recebemos um telefonema de ameaça. Foi, de fato, um escândalo na Baixada. Caíram o delegado e o diretor do presídio, carcereiros foram afastados. Em 24 de março de 1996, um domingo, o Jornal da Tarde publicou uma nota em que relatava, com fidelidade, todo o trabalho que fizemos e as ameaças que recebemos…”
Berçot também foi matéria do Diário do Litoral em 2020. Nesta ocasião este denunciava uma máfia que, supostamente, combinava os resultados das licitações na cidade de Praia Grande. Prejudicando os demais concorrentes.
Berçot ainda responde a um inquérito de número 0394/2018, que tramita na Delegacia de Polícia Federal de Santos, onde uma das empresas em que se apura a fraude em licitações é a Montreal Technology. Empresa que mantém o contrato de locação do prédio do futuro Instituto de Criminalística e Instituto Médico Legal de Santos. Outro inquérito, pelo mesmo teor de fraude, se encontra sob a responsabilidade da Delegacia de Investigações Gerais de Santos, pela polícia civil do estado.
NINGUÉM RESPONDE
A situação do prédio do IC de Santos vem sendo questionada por várias autoridades da cidade e do estado. Alguns questionam a localização. Que apontam não trazer segurança para a vizinhança.
Em outros casos, o questionamento é justamente em direção a possível relação estranha entre as partes. É o caso do questionamento realizado pela Deputada Janaína Paschoal (PRTB) que chegou a inserir em seu requerimento de informação à Secretaria de Segurança Pública se haveria algum tipo de conhecimento prévio com o contratado.
Todos os pedidos de informações sobre o assunto sempre tem como resultado o silêncio ou respostas incompletas e sem relação com o questionamento.
SORTE??
Apesar de ter adquirido o prédio em outubro de 2018. O número do processo informado no contrato de locação é 236/2018. Ou seja, mesmo ano da aquisição do imóvel. Porém, a secretaria de segurança pública não informou a data de início do processo.
O QUE DIZEM AS PARTES
Edmundo Berçot Jr foi procurado e não retornou nosso contato. O mesmo ocorrendo com Mariana Nunes.
Questionado o diretor do IC em Santos, informou que todos os trâmites corriam diretamente por São Paulo e que deveríamos nos reportar a estes. No entanto, a assessoria de imprensa ignorou todos os questionamentos relativos ao caso. Se limitando a responder que o inquérito que estava sob a responsabilidade da DIG/Santos estava sob sigilo.
Tentando buscar informações a reportagem se dirigiu ao bairro do Macuco. Em conversa com moradores, que preferiram não se identificar, relataram que já estavam cansados de tentar impedir o IML naquele local: “Não dá para brigar com quem tem dinheiro. Eles sempre vencem”. Outro morador chegou a identificar, por foto, a presença de Edmundo no local por algumas vezes desde o início das obras.
Encontramos na obra um único operário. Perguntado sobre a empresa que estaria a cargo dos serviços nos informou que era o dono do prédio mesmo e que a obra não deveria estar concluída antes de março. Segundo o trabalhador havia alguns problemas de material que deveriam ser resolvidos por conta de licitação. Que era o que ele sabia.
Todos os documentos apurados pela reportagem estarão sendo remetidos as autoridades competentes.