18/12/2021
“O DESMONTE do MORRO do CASTELO
A muito tempo que se falava da necessidade de se desmontar o Morro do Castelo. Alguns por achar que o monte era pouco higiênico, pois bloqueava a brisa do mar; outros, de olho no espaço que adviria de seu arrasamento e dos consequentes aterros dos charcos existentes em suas proximidades. Terceiros, entretanto, mais gananciosos e sonhadores, apostavam na veracidade da lenda que se criou sobre o Morro do Castelo, desde que, em 1759, o Marquês de Pombal causara a expulsão dos Jesuítas desta sua propriedade: a da existência de um incomensurável tesouro dos Jesuítas escondido no subsolo do Convento ali existente. Fala-se até de uma estátua de ouro maciço, em tamanho natural, de Santo Inácio de Loyola.
Levava-se tão a sério essas fantasias, que era voz corrente que uma grande companhia inglesa propusera-se a arrasar o morro por conta e risco próprio, contentando-se com os possíveis achados, mas isso talvez fosse outra lenda dentro da própria lenda. Entretanto, nada foi feito até 1920, quando o Prefeito Rodrigues Alves resolveu dar início às obras.
Mas, nesse meio tempo, já surgira a ideia de se fazer uma grande comemoração pelo Centenário da Independência do Brasil. Assim, resolveu-se por uma Exposição Universal com a participação de pavilhões de todos os países civilizados do mundo. Rapidamente, com máquinas escavadoras e jatos de água, o Morro do Castelo foi arrasado, cedendo espaço ao progresso. Em poucos meses, a Av. das Nações, hoje Pres. Wilson, estava aberta e calçada! Foram construídos, então, os prédios principais desta Avenida e outros adjacentes. A Inglaterra, a França, os Estados Unidos, o Japão e outros países menos cotados, cada qual construiu o seu respectivo Pavilhão na belíssima Feira que, a 7 de setembro de 1922, inaugurou-se com toda a p***a e circunstância.
Mas, como sempre, existe o out4o lado da moeda: o desmonte gerou um imenso entulho que serviu para fazer com que desaparecessem, para sempre, as Praias da Lapa, de Santa Luzia e da Ponta do Calabouço, avançando no mar por meio quilômetro em direção à Ilha de Villegagnon.
Ah !!! E o tesouro ??? Talvez, apenas talvez, consistisse nas vantagens de se fazer obras públicas!”
Fonte (texto e pinturas): “RIO ANTIGO POR CAMÕES" – Eduardo Camões – Art Collection Editora, 2001.
(*) Do autor do post.
Imagens:
• “Praia da Glória em 1850”
(O morro à direita é o do Castelo)*,
• “Santa Luzia do topo do Morro do Castelo em 1880”,
• Ladeira da Misericórdia (“Lugar Invisível”), único vestígio do Mo. do Castelo.