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29/11/2023

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24/04/2020

O Feijão Tropeiro, considerado "invenção mineira" é na verdade originário dos paulistas.

Nos decorrer dos tempos da colonização em São Paulo, os paulistas viram a necessidade de adaptar o preparo aos ingredientes disponíveis nas terras exploradas por bandeirantes paulistas; daí o entendimento que as primeiras refeições, como seria o feijão tropeiro ou o virado a paulista, se utilizava de componentes já dominados ou de mais fácil colheita. A cozinha paulista também não apresentava hábitos refinados, marcada pela simplicidade e facilidade, dando origem a culinária caipira.

Juntamente com as favas, o feijão já era de domínio e alimentação do indígena paulista, chamado na língua tupi de "cumandá" ou "cumaná", embora aos indígenas não despertasse preferência nem atração irresistível, como a farinha de mandioca provocava. Já o paladar europeu foi conquistado pelo sabor dos feijões, e mais acentuada conquista seria ao bandeirante paulista e ao tropeiro paulista, filhos de portugueses, espanhóis e ameríndios, que viriam a ser o principal “consumidor-propagandista” do feijão e disseminador desta iguaria fora de São Paulo.

O "feijão-e-farinha", servidos nas refeições diárias dos paulistas e dos brasileiros era predominante no cardápio do país desde o início do século XVII, com difusão principalmente pelas marchas das bandeiras paulistas. A dieta dos bandeirantes, continuada pelos tropeiros(bandeirantes comerciais), era igual à do lavrador/roceiro e da maioria dos paulistas, compondo-se de feijão com farinha, sem poucas variações. Especificamente sobre o nascimento do prato feijão-tropeiro entre os tropeiros, não há literatura que confirme cientificamente o local exato de sua origem, embora vários historiadores que estudam o tropeirismo relatam os hábitos das tropas paulistas, descrevendo o preparo muito parecido com a forma de se preparar o primitivo "virado a paulista".

Almeida relata: "Ao meio-dia [meio-dia corresponde o aproximar do jantar] a tropa paulista não caminha mais. Num rancho, ou num encosto ao ar livre, o cozinheiro descarrega sua bateria, o feijão cozido, o toicinho, prepara a forquilha [...]Estende a mesa. A mesa é o ligal, couro inteiro de boi, seco, que serve para infinitos usos. sobre o ligal, a farinha de milho ou de mandioca, os pratos de ferro batido ou as cuias de chifre, as colheres. [...]Cheirava o feijão pronto. Jantar. Todos descansam. Só o cozinheiro está lavando pratos e colheres. [...]"

Mais adiante, Almeida (Ibid., p. 81) conta sobre outras responsabilidades do cozinheiro tropeiro:

[...] o cozinheiro não está em descanso; prepara os arranjos necessários à sua arte, acende o fogo, deita sôbre êle uma trempe feita de paus, e nele pendura o caldeirão contendo o feijão e a carne seca, alimentos quase sempre usados pelo viajante paulista no sertão. Ordinàriamente estende sobre o chão um couro de boi e sôbre êle uma toalha, na qual coloca os pratos de estanho. Depois, com voz de trovão brada: feijão! A este grito acodem todos, e tanto o patrão como os camaradas e arriador fazem honroso ataque a tão saborosas iguarias.

O cozinheiro podia caminhar mais rapidamente a frente da tropa a fim de preparação da comida, inclusive a cocção do feijão para o dia seguinte, já que a ele não cabia responsabilidades com a condução das tropas. Maia e Maia (1981) lembram que a comida do tropeiro paulista era feita pela mão do homem, já que as mulheres não trabalhavam nas tropas e também não iam ao rancho, com exceção das romarias. Os mantimentos e os instrumentos para cocção eram carregados pelas mulas, acomodados dentro das bruacas (caixas de couro), que se ajustavam às cangalhas das bestas de carga. Segundo Bonadio (1997), a alimentação das tropas paulistas era simples: feijão, arroz com carne seca picada, farinha de mandioca. Lemos (1976), a farinha de mandioca como ingrediente da receita do feijão tropeiro é oriunda do cardápio indígena provinda de costumes bandeirantes. A contribuição do índio é dada também pela prensa de espremer mandioca ralada para farinha, e aos bandeirantes e tropeiros paulista se deve o mérito da disseminação do uso dessa farinha por todo o centro-sul do país, bem como a valorização do uso do sal na alimentação, ambos ingredientes fundamentais no que chamamos de feijão tropeiro.

Pedaços de toucinho e carne de porco enriqueciam o feijão, e como bebida, eram importantes a água ou o café. Depois de frito e retirada a gordura, o torresmo era colocado no caldeirão do feijão, que era comido amassado com a farinha por uma colher. Alguns tropeiros também cozinhavam o feijão com o pé do porco e costela, já salgados e com algumas tiras de carne.

Vale pontuar que se nota a relação histórica entre as cozinhas caipira paulista na formação da culinária mineira e sua manutenção ao longo do tempo. Alguns pratos que são hoje conhecidos como tendo origem e típica "mineira", são oriundos de hábitos paulistas dos primórdios da colonização antes que se pudesse descobrir as Minas Gerais, sendo hábitos dos bandeirantes e, posteriormente, dos tropeiros, a exemplo do feijão tropeiro, tutu de feijão e etc.
Os paulistas na época do ciclo do ouro, abasteceram a alimentação dos mineradores a base de seus hábitos culinários, pois havia literalmente mais ouro do que comida nas regiões mineradoras, onde muitos acabavam morrendo de fome. É daí que o bandeirante paulista torna-se tropeiro e se encarrega de abastecer os suprimentos que esta região demandava.

O Feijão Tropeiro não se originou em Minas Gerais, pois era comida de viagem, comida de pouso e que fora introduzida nesses ricos rincões mineiros. Não havia lugar fixo para esta saborosa iguaria para darmos seu local exato de origem, mas podemos localizar quem o fazia, quem eram e de onde vinham.
Hoje o Feijão Tropeiro faz parte da culinária tradicional caipira de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goias, e também as serras de Santa Catarina e Norte do Rio Grande do Sul.

É claro que o feijão tropeiro faz parte da culinária de Minas Gerais, mas não se pode negar sua origem apenas por bairrismo e rechaço contra paulistas. E os paulistas devem explorar e valorizar melhor sua própria identidade culinária, pois afinal, esta culinária caipira nasceu entre nossa gente.
Devemos dar valor ao que é nosso em vez de priorizarmos e nos deixarmos seduzir por estrangeirismos. Já se foi o tempo de desprezar as própria origens e a tão bela e saborosa cultura caipira.
Fonte: Cultura Paulista

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