12/03/2026
Bali: entre o sagrado e o preço do estrangeiro
Em Bali, quase tudo parece espiritual.
Uma ponte entre o profano e o sagrado — um esforço constante para equilibrar forças humanas, naturais e divinas.
Mas o tempo mudou muito tudo isso.
Basta entrar em um carro de aplicativo.
O motorista sorri, é cordial. Logo vêm as perguntas, sempre as mesmas:
Onde você está hospedado?
Há quanto tempo está em Bali?
É sua primeira vez aqui?
Depois surgem as sugestões: Foi a Ubud ? Uluwatu?
Parece conversa.
Na verdade, é avaliação.
Essas perguntas são feitas nos mais diversos setores.
O motorista quer saber duas coisas: se pode vender seus serviços para te levar e até onde vão seus recursos.
Se você estiver hospedado nas áreas mais sofisticadas, pagará mais do que quem f**a em regiões simples. Essa leitura rápida do estrangeiro acontece o tempo todo.
O resultado, muitas vezes, é previsível: cobrar mais e entregar menos, esperando ainda receber algo a mais: a gorjeta.
Pode parecer estranho em uma cultura que fala tanto de equilíbrio. Mas essa lógica não surgiu de repente.
Durante décadas, os balineses viram estrangeiros chegar, comprar terras, abrir negócios e ocupar espaços privilegiados. Enquanto isso, grande parte da população local permaneceu em posições modestas.
Assim se consolidou uma percepção silenciosa: o estrangeiro tem mais, pode mais e deve pagar mais.
Dentro dessa estrutura, muitos balineses passaram a ocupar o lugar de quem serve — motoristas, babás, trabalhadores do turismo. Uma economia organizada em torno de visitantes e residentes estrangeiros.
Quando essa dinâmica / estadia se prolonga, algo muda.
A filosofia permanece nos templos e nas oferendas diárias.
Mas, na vida prática, cede espaço a uma realidade mais pragmática, marcada por hierarquia e desigualdade.
Existem supermercados de estrangeiros.
Restaurantes de estrangeiros.
Lugares para estrangeiros.
Preços para estrangeiros.
Pouco é realmente autêntico para quem vem de fora.
Bali já foi extraordinária. Hoje, muitas vezes, parece viver de uma estética cuidadosamente mantida — uma maquiagem cultural pensada para impressionar visitantes.
Como atravessar essa barreira?
Com calma. Com o tempo é possível mostrar que ser estrangeiro não signif**a ser perdulário ou ainda abastado.
Também é preciso abandonar o lugar de vítima e investir em algo mais difícil: relações de conhecimento, convivência e respeito.
Mas isso exige tempo.
E tempo é justamente o que turistas e estrangeiros quase nunca têm.
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www.morandopelomundo.com.br.
Marcia Sztajn
Marcia Sztajn