22/06/2026
Tem uma passagem em meu livro, onde o personagem retorna à casa de sua mãe depois de uma viagem cheia de revelações. Ele havia passado por casas parecidas, onde haviam muitas flores em jardins cuidados, uma varanda com cadeiras confortáveis onde toda tarde tomavam chimarrão batendo papos enriquecedores. Ele era paulista e aprendeu a tomar chimarrão naquele lugar. Na sala interna, as luzes quentes traziam aconchego, cheiros de incensos e aromatizadores de ambiente davam o toque final.
Ele chegou na casa dela cheio de ideias e em dois dias já tinha limpado os canteiros, plantado flores, trocado as lâmpadas brancas e arrumado a varanda. O incômodo foi geral.
Eu trouxe essa passagem pois a impressão é que o mesmo ocorre em nosso retorno aqui na cidade. Chegamos cheios de ideias e vontade de criar ou mudar coisas que para nós, era visível estarem defasadas, mas como no livro, passamos a incomodar. Pensei que éramos mesmo muito chatos, ou não sabíamos dosar nossas palavras. Mas depois dessa semana, percebi que o problema não é nós.
Quando eu vi que 'letrados' não lêem suas próprias letras e há 36 anos se conformam com a palavra de sentido duplo e cômico no próprio nome de sua instituição, eu percebi que a cidade não liga pro mal feito. Prefere estar à margem do medíocre do que arriscar falhar tentando o aperfeiçoamento.
É mais fácil assim. É mais fácil construir um portal sem pensar no fluxo das pessoas, e se acostumar com aquela obra de Lego enviesada na estrada, ou aproveitar a obra feita por alguém, mesmo que feia, com traços questionáveis de anatomia, do que tentar fazer algo belo e fracassar. “Foi o fulano que fez. Não julgue, tadinho, ele nem tem aptidão”, eles dizem, pra justificar o mal feito.
Mas dai, a gente falou. A gente comentou em voz alta o que todo mundo estava cochichando nos bastidores, A gente questionou o verbo questionável que a sigla gerou, e nos responderam o que sempre respondem “já está feito”.
Sabe o que não estava feito? Um site da cidade. Quando chegamos, os pontos da cidade sequer aparecia nos mapas. Fizemos! Trouxemos nossa ideia e invés de termos apoio, hoje temos no mínimo outros 4 sites copiando o mundiato.
Eu quero mais que nos copiem mesmo, nos copiem nas flores do jardim cuidado, na varanda convidativa, no cheiro do incenso… Mas insistem em colocar essa luz branca, fria e o cardápio de QRcode, pra um evento divulgado em arte de inteligência artificial. Tudo bem… mas se não quer valorizar o trabalho do outro, pelo menos copia direito! Ou me chama que eu te ajudo…
Eu recebo mensagens privadas de pessoas concordando comigo. Ou encontro alguém nas ruas, e a pessoa vem me dizer que eu disse o que ela queria ter dito. Eu sinto que não estou sozinho e talvez 5 curtidas concordando com esse texto me aqueça o coração por um minuto. Mas na vida real, o silêncio das pessoas insatisfeitas na cidade é tão intenso, que até quem sussurra é ouvido, e meu grito é apontado, condenado e massacrado.
“Era uma joia tão rara, tinha tanto pra falar, tanta aptidão, tantas boas ideias. Um conhecimento e experiência que iria revolucionar nossa cidade, mas não soube dosar sua voz e se calou, saiu de todos os grupos e foi cuidar da própria vida, se isolou em seu próprio projeto, coitado.”
Ele rodou tanto e veio parar aqui. Mas ainda assim, prefere não acasalar com uma imagem pescoçuda ao som desafinado da mesma música incessante, que era tão perfeita e reconhecida que foi repetida à exaustão, como a única coisa a se orgulhar. Sob o discurso interminável de um palhaço bajulador, ele se retira. Mas não por muito tempo.
Porque sua natureza é querer sempre o melhor, ser justo e querer ajustar as coisas com as ferramentas que tem a mão: Sua escrita, sua voz e seu humor sarcástico e irônico que as vezes choca as pessoas da cidade, que ficam sempre em silêncio, acostumadas com o ordinário.
“Não as tire do ordinário. Evoluir dói”, grita o representante do rei…
(por Claudio Rozante)
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