10/08/2025
A Bela Adormecida do Everest: o que aconteceu com Francys Arsentiev
Em maio de 1998, a alpinista americana Francys Arsentiev alcançou um feito histórico: tornou-se a primeira mulher dos Estados Unidos a chegar ao topo do Monte Everest sem oxigênio suplementar. Mas o que deveria ser uma celebração épica terminou em tragédia. Seu corpo permaneceria ali, congelado, por quase uma década — exposto ao vento e à neve, transformando-se em uma das figuras mais assombradas da montanha. Os alpinistas que por ali passavam a chamavam de “Sleeping Beauty”, a Bela Adormecida.
Francys tentava o cume junto ao marido, Sergei Arsentiev. Ambos experientes, escolheram a rota norte, mais árida e traiçoeira. O plano era ousado: subir e descer sem oxigênio. Mas o Everest não perdoa margem de erro. Após atrasos e noites a céu aberto, Francys sofreu os efeitos da hipóxia severa, perdendo força, coordenação e consciência. Na descida, o casal se separou. Sergei voltou ao acampamento-base acreditando que a esposa havia morrido. Ao descobrir que ela ainda estava viva, subiu novamente para tentar salvá-la — e nunca mais foi visto com vida. Seu corpo só seria encontrado no ano seguinte.
No dia seguinte ao cume, outros alpinistas encontraram Francys ainda viva, sentada na neve, desorientada, com o rosto queimado e os olhos sem foco. Tentaram ajudá-la, mas estavam na "zona da morte", onde cada passo consome o corpo. A 8 mil metros de altitude, não havia como carregá-la. Tiveram de deixá-la ali.
Francys morreu sozinha, a poucos metros da saliência chamada “The Balcony”. Seu corpo ficou ali por nove anos, coberto pela neve, vestindo uma jaqueta roxa. Passou a ser um ponto de referência na trilha rumo ao topo — um marco triste daquilo que o Everest pode tirar.
Em 2007, Ian Woodall e Cathy O'Dowd, dois dos alpinistas que a haviam encontrado agonizando em 1998, voltaram ao Everest para cumprir uma promessa silenciosa. Retiraram o corpo da rota principal, cobriram-no com uma bandeira americana e deixaram flores. Foi o último gesto de humanidade em uma montanha onde a morte é comum e o tempo, congelado.
A história de Francys Arsentiev é mais do que uma tragédia. É um espelho brutal da ambição humana diante do impossível — e um lembrete eterno de que, no Everest, até as vitórias podem terminar em silêncio.