27/04/2016
Bolívia, abuso de autoridades locais e experiências diferentes.
Todo mundo sabe que as impressões que as pessoas tem das coisas são diferentes, baseadas nos seus gostos, precedentes culturais, criação e tudo mais. A única coisa que me levou a querer conhecer a Bolívia foi a quantidade de gente que conheci durante a viagem falando o quanto a Bolívia era maravilhosa, barata, diferente...
A Astrid e eu nunca estivemos interessadas em viajar pra lá, e íamos pular o país facilmente se não fosse por toda essa faladeira.
- A Bolívia é maravilhosa!!!! Não bebam nada que não seja engarrafado, mas nossa, vão sim!!!!
- A Bolívia é a coisa mais linda que já vi, tenham cuidado com as pessoas, é bom não pedir carona também, e não vão andar sozinhas de noite... De dia também não é bom andar sozinha não, mas sim, a Bolívia é linda!!!
A foto desse post é o que eu esperava que fizesse todos os poréns do país valerem a pena, o Salar de Uyuni. Esses 10.582 km² de puro sal, onde o céu é refletido e o horizonte deixa de existir.
A outra foto foi o que a gente encontrou quando chegou lá, depois de pagar uma excursão caríssima, porque não chovia fazia muito tempo e todo o sal estava misturado com a terra... E a gente nunca tinha encontrado em nenhum lugar (nem pensado na possibilidade) de que toda essa água só existe quando chove, porque nunca tivemos nenhuma ideia de como funciona um salar.
De tanto que disseram que a Bolívia era um país complicado, perigoso e machista, decidimos não pedir carona e andar só de ônibus para nos movimentarmos de cidade a cidade, e por isso pagamos super caro nas nossas passagens de São Pedro de Atacama até Uyuni, o que até teria valido a pena (porque são 7 horas de puro deserto) se não fosse pela seguinte situação:
PASSAMOS PELA NOSSA PRIMEIRA SITUAÇÃO DE MEDO E DESESPERO NA VIAGEM!!!!
Quando chegamos na fronteira entre o Chile e a Bolívia, não tivemos nenhum problema para receber o selo de saída, mas o selo de entrada quase custou muito mais do que deveria.
Todos no ônibus entravam e saíam do ministério de imigrações boliviano e, quando finalmente chegou a nossa vez, demos de cara com um índio fortão com vários dentes de ouro e um sorriso sarcástico e, por alguma razão (pode ser preconceito mesmo, ou talvez uma forte intuição) a gente já sabia o que ia acontecer.
Primeiro, depois de pedir todos os nossos documentos, ele tentou negar nossa entrada porque a Astrid é colombiana e não levava seu passado criminal (em branco) impresso... Não há nem necessidade de falar o quanto isso é ilegal. Depois de muito argumentar, ele se deu conta de que meu sobrenome era diferente e me perguntou de onde era - obviamente, depois de descobrir que era alemão, me fez a pergunta de ouro:
- Quanto você está levando em dinheiro?
Como um puma, reagi o mais rápido possível e saí com que não levava dinheiro em espécie por segurança, e só viajava com cartão de crédito, o que o levou a outra pergunta:
- E se você não tem dinheiro em espécie, como eu sei que você não está entrando na Bolívia para trabalhar?
Era óbvio que se eu dissesse "oras, porque geralmente são os bolivianos que vão pro Brasil para trabalhar", ele provavelmente ia me deixar largada no meio do deserto do Atacama...
Muitos argumentos vem e vão, tentando explicar que só queríamos ver o salar e conhecer a capital, que sairíamos do país em 1 semana, que éramos simples turistas, e finalmente passamos pelo que mais nos dava medo durante a viagem:
- Então a gente não vai deixar vocês passarem. Vão ter que voltar pro Chile. Se vocês querem mesmo entrar pra Bolívia, podem passar uma noite aqui com a gente na fronteira, e amanhã a gente libera a entrada de vocês. *sorrisinho pe******do*
Eu congelei. A Astrid congelou. A gente queria gritar, fazer um escândalo, bater no cara, chamar a polícia, vomitar de tanto nojo, mas as autoridades lá eram eles. A gente não tinha dinheiro. A gente tava no meio do deserto. O que a gente podia fazer? As autoridades não deveriam oferecer proteção? Cuidar do nosso bem-estar? Um convite amistoso para um estupro não me parecia nenhuma dessas coisas... Tentamos o máximo que podíamos fazer cara de desgosto, mostrar que a gente não ia ceder, e que não estávamos entendendo onde é que ele queria chegar. Selou nossos passaportes, por apenas 15 dias, e quando por fim demos as costas, nos disse como um ato de despedida:
- Cuidado com os "lobos" aqui na Bolívia! A gente gosta de comer carne crua.
O Salar estava seco. Tudo na Bolívia foi muito mais caro do que a gente esperava. La Paz era feia e suja. As pessoas eram tristes e agressivas. As autoridades não se importavam com o bem-estar de ninguém, dos muitos turistas, da população, apesar de haverem cartazes por todos os lados que diziam "perante a lei boliviana, todos são iguais".
No último dia, comemos um "típico" prato de arroz com frango e batatas no almoço, antes de cruzar a fronteira com o Perú, para conhecer o lado peruano do famoso e misterioso lago inca, Titic**a, e realmente foi uma c**a, porque passamos 3 dias de cama com infecção alimentária vomitando e cagando por todos os lugares que passávamos. Era meu aniversário quando estávamos em uma ilha no meio do lago sem poder subir uma montanha pela falta de oxigênio e dor de estômago, mas com uma certeza:
- Se você foi pra Bolívia e não teve diarréia, você não foi pra Bolívia.