06/06/2015
32° Último Dia
Arzuá - Santiago de Compostela 40km
Escuto o despertador do Rafa tocar, meus olhos abrem e vejo as pessoas como vultos andando pelo quarto, viro para lado como que no automático e penso, está cedo para levantar!
Cochilo mais alguns minutos e sinto uma mão em meu ombro, Ligia, acorda temos que ir! Era Pinguim me acordando.
Ainda confusa, abro os olhos e vejo a minha mochila no pé da beliche. Eram 4:30 da manhã, e pela última vez eu iria fazer a minha rotina como peregrina, abaixei a cabeça e sorri. Sim, temos que ir...temos que chegar em Santiago de Compostela.
Levantei e fui me arrumar, eramos 7 no quarto, enquanto todos se arrumavam dava pra se ouvir o silêncio, não sei se era nervosismo, ansiedade ou preocupação. Mas todos nós estávamos mais concentrados em si mesmos, afinal o nosso objetivo estava se cumprindo e hoje era o dia tão esperado!
5:30 saímos do albergue e começamos a caminhada, ainda estava muito escuro e muito frio.
Andávamos por Arzuá e não encontrávamos as setas amarelas, então fomos seguindo a rua principal até o final, parávamos, olhávamos em volta e não víamos as setas de jeito nenhum. Estava escuro e só tínhamos a iluminação das lanternas. Era somente duas opções, seguir pela rodovia ou voltar tudo até achar alguma seta. Escolhemos seguir pela rodovia, em algum momento ela ia cruzar com alguma cidade do caminho e poderíamos entrar novamente no rota certa. Até aí tudo bem, só não esperávamos pela grande rotatividade de carros e caminhões as 5h da manhã na estrada. Foi complicado!
Andávamos na meio da escuridão em uma fila, duros e tensos, quando ouvimos uma voz gritando lá longe. Todo mundo parou e olhou para trás, e eu só pensava FUU #*@&!!!!! hahahaha!
No meio do mato vimos uma pessoa com uma luz balançado, e alguém falou, é o Rodrigo! Sim, era o Rodrigo pela graça de Deus todo poderoso, respiramos aliviados, rs!
Ele tinha f**ado no albergue, então nem contávamos em encontrar com ele ali naquela hora. Depois do pequeno susto seguimos. Andamos 3km pela carreteira até encontrarmos uma cidade, já estava amanhecendo, entramos, vimos a seta amarela e comemoramos, estávamos de novo na rota do caminho!
Paramos, tomamos café e continuamos a andar, em questão de horas o calor já estava forte e o ritmo estava mais lento.
A vontade de chegar em Santiago só era maior que a vontade de continuar no caminho. Andávamos devagar, conversando, tirando fotos e curtindo o dia, o último como peregrinos!
Em cada placa víamos os kms indo embora e a vontade de chegar só aumentava. Muitos peregrinos iam chegar em Santiago hoje, e outros iam dividir o caminho e chegar no outro dia, mas em todos eles se podia ver a empolgação, foi um longo caminho e muitos f**aram para trás, alguns desistiram. outros já chegaram em Santiago, mas acho que cada um já guarda um pouco do caminho dentro de si.
Depois dos 25 primeiros km o corpo já dava sinais de muito cansaço e ainda faltavam em torno de 15 km. O ritmo foi caindo e como sempre, não podia faltar no último dia, eu fiquei por último, rs! Meu tornozelo começou a doer mais que o normal, isso quer dizer doer muito mesmo. Eu tive que parar em um bar e f**ar lá um tempo sentada, mas até essa parte estava sendo legal. A dor foi minha fiel companheira no caminho, no começo nossa relação era de ódio, depois comecei a entender que a dor era parte do caminho e se eu quisesse estar aqui eu teria que aceitá-la, afinal sem dor não há caminho.
Continuei a andar e fui conversando com alguns peregrinos, todos caras novas para mim. Conversei por um longo tempo com um Italiano, Marco de 25 anos, e brinquei com ele falando que até que fim achei alguém mais novo que eu! Caminhamos juntos até a próxima cidade, ele também chegaria em Santiago hoje.
Encontrei meus amigos sentado em um bar, o cansaço era quase que palpável, todos já estavam esgotados. Sentei, tirei a bota e fui comer algo, tínhamos ainda 9km pela frente, mas o bom humor e a vontade de chegar falava mais alto, depois de uma pausa, seguimos andando até nossa próxima parada que era o Monte do Gozo, última antes de Santiago.
E como o próprio nome diz, monte signif**a subida. Na verdade o monte não era muito alto, mas subir qualquer coisa depois de andar 30 km é, como posso dizer isso sendo educada? Acho que eu senti dor até no sangue circulando no corpo, DIFÍCIL!
Depois de algumas horas chegamos ao topo do Monte do Gozo, e vimos, pela primeira vez, as torres da Catedral de Santiago, senti meu corpo todo arrepiar, estava tão perto, 5km era distância entre eu e Santiago de Compostela.
Sentamos um pouco e f**amos ali exaustos, ninguém tinha força nem para falar. A gente sabia que seria os 5km mais longos do caminho, já estávamos andando a mais de 9 horas.
Descemos o monte e a sensação era que, embora mortos de cansaço físico a nossa cabeça estava bem, cheia de animo e alegria.
Caminhávamos eu e Adriana em silêncio, já estávamos nos aproximando da cidade e a paisagem urbana tomava o lugar das flores e matas que tanto nos acompanharam neste caminho. Depois de 1h já estávamos entrando na cidade de Santiago, passamos em uma grande ponte e no final Rafa estava nos esperando, nós conseguimos, disse ele sorrindo! Sim, estávamos já na cidade, chegar na catedral agora era questão de 3km, faltava pouco e parecia que a cada passo ganhávamos uma sobrevida.
Andávamos ali como peregrinos, naquelas ruas por onde já passaram centenas de milhares de outros como nós, peregrinando em busca de algo, uma resposta, uma busca? Não sei! Assim como o caminho é de cada um os motivos também são.
Por volta das 5h, o sol ainda era forte entramos no centro histórico de Santiago, o coração batia mais acelerado, de fundo ouvíamos uma gaita de fole, não sabíamos muito bem se estávamos indo pelo caminho certo, pedimos informação para uma senhora, meus filhos a catedral é logo ali, todos os caminhos levam a ela. É, todos os caminhos levam a Santiago, até os errados como o de hoje de manhã.
Andamos em frente, passamos por um túnel, vimos o cantor da gaita de fole e continuamos andando até sairmos de lá e entramos uma grande praça, nosso olhar passeava ao redor e depois de 5 ou 6 passos, lá estávamos nós diante da Catedral de Santiago de Compostela.
A sensação era de vitória, felicidade, alívio, cansaço, era tudo ao mesmo tempo, mas de algum jeito a catedral nos transmitia força.
Encontramos nossos amigos e o momento era de alegria, nos abraçamos, e nos demos parabéns, foi uma vitória conquistada literalmente com mt suor. F**amos ali olhando a praça por alguns minutos, até o coração se tranquilizar e a respiração se acalmar.
Andamos até a Oficina do Peregrino, a fila era grande mas ninguém queria esperar mais para pegar a sua Compostela. A fila ia rápido, e depois de uns 15 minutos eu já era a próxima. Entrei e um homem me pediu as credenciais e o passaporte. Ele me perguntou se eu estava cansada, eu olhei para ele séria, mas abaixei a cabeça e ri. Estou só um pouco, respondi. Ele me perguntou de onde eu tinha iniciado o caminho e a data, e começou a escrever a Compostela. Minha cabeça foi longe, até em SJPP, onde no início da caminhada um outro senhor da associação bateu meu primeiro carimbo na credencial, agora estou aqui em Santiago, retirando a minha Compostela, era uma sensação indescritível. Parabéns Ligia e bom caminho, ele disse me entregando, eu agradeci e fui embora com um sorriso do tamanho do mundo!
Fomos procurar um albergue, Santiago é grande, mas não queríamos f**ar longe da Catedral. Conhecemos o espanhol Oscar que veio do outro lado da Rua perguntando se éramos brasileiras, começamos a conversar, pedimos informação sobre lugar para dormir e ele foi super prestativo, não podia ser diferente pois na sua camisa estava escrito "gentileza gera gentileza".
F**amos no Albergue do Peregrino Monastério Menor, 15 minutos de distância do centro. O lugar é lindo, parece um castelo e se não fosse a rampa enorme que temos q subir até lá seria perfeito.
A caminhada foi muito cansativa, aproximadamente 40km em 12h, estávamos felizes, porém cansados, comemos e fomos dormir, o outro dia era o fechamento do caminho, o último feito ainda como caminhantes, a missa do peregrino.
A missa na Catedral é realizada todos os dias ao meio dia, e é como o ritual de término, onde recebemos a benção final pela peregrinação. Entramos e a igreja já estava lotada, vimos vários amigos do caminho, a sensação foi boa em reencontrar todos.
E lá estava eu ao lado de Adriana, minha amiga, companheira de viagem, parceira nas horas das dores e das alegrias, não consigo imaginar fazendo essa viagem com mais ninguém, talvez ninguém fosse tão louca em embarcar nessa comigo, mas ela foi! E são coisas desse tipo que te fazem acreditar no valor da amizade, do amor, e do ser humano.
Não existem 2 caminhos iguais, eles são únicos, mesmo compartilhado com outra pessoa. Dri fez seu caminho, eu fiz o meu e tenho certeza que cada uma de nós tiramos conclusões diferentes disso tudo, mas sei também que por algum motivo Deus quis que estivéssemos juntas nessa jornada que nos levou muito mais que a Santiago, nos levou a sermos um pouco melhores de quando começamos, um pouco mais fortes e corajosas também. Hoje eu sei que tenho ao meu lado não sou uma companheira de viagem e sim uma irmã que Deus me deu e Santiago abençoou, obrigada por estar comigo nesse momento tão importante Dri.
Durante a missa f**amos todos atentos para cada palavra que o padre dizia. A igreja transmitia uma paz inexplicável, o altar era lindo e os cantos dos padres consolavam como um abraço. A emoção e o respeito de todos era notório. Muitas coisas passaram em minha cabeça, foi quase um viagem por todo o caminho. Os dias foram como vidas, com altos e baixos em questão de minutos. Conheci muita gente, vivi a minha dor e dor das pessoas, fiquei feliz com as minhas conquistas e as conquistas das outras pessoas. Aprendi a dividir e a somar com quem precisava.
Muitos não entenderam pq eu fiz o caminho, fui chamada de louca, alguns não acreditavam, e não me levaram a sério.
Eu não sou mais ou menos especial por ter feito o caminho, minha vida não mudou completamente e eu ainda continuo tendo problemas, a diferença é que eu não deixei o medo, nem a dor, nem o desconhecido me imobilizar, eu tinha um sonho, eu saí da minha zona de conforto, eu fui atrás dele.
Eu aprendi que disciplina anda junto com o sucesso e as vezes para conseguirmos o que queremos é preciso abrir mão de muitas coisas, mas que no final, vai valer a pena.
O caminho só existem para quem caminha, para quem tenta e para quem vence suas amarras e vai, as vezes sem saber direito onde, como ou porquê.
E depois de 32 dias e 800 km caminhando, eu acho que o importante não é chegar e sim sempre continuar.
Tenham todos um bom caminho!
Ligia Camilo