14/01/2019
Largar tudo? Vaidades? Quem é o viajante de hoje?
Quem leu alguma reportagem sobre viajantes nos últimos tempos, certamente deparou-se com essas expressões... pessoas que “largaram” uma carreira, casa, papagaio e partiram para o mundo.
Então lembrei-me de que há exatamente dez anos eu estava em algum canto do Nepal, fazendo a minha primeira longa viagem, a primeira volta ao mundo. Eram tempos diferentes, “largar tudo” ainda não era moda, os smartphones não eram nada populares, redes de wifi eram coisa de outro mundo... em alguns cybercafés era necessário esperar por alguns minutos até conseguir abrir um webmail! Mas mesmo assim, quase isolado do planeta, eu não sentia que tinha largado tudo.
Eu NUNCA larguei a minha família, meus amigos e os meus ideais.
Largar tudo é um exagero ou até uma mentira, ainda maior hoje em dia. Para uma viagem longa é preciso alguma dose de desapego, é preciso coragem e é preciso muita vontade! Mas hoje é possível viajar e voltar... voltar para a mesma casa, para a mesma carreira, para o mesmo relacionamento. Aliás, é possível viajar sem nem ter necessariamente saído, pois são muitos (talvez a maioria?) os viajantes que passam mais tempo interagindo com pessoas do seu país de origem do que com os habitantes do local que visitam.
Então eu me pergunto, com nostalgia de um avô e tom de apresentador do Globo Repórter: quem são os viajantes de hoje? O que comem? O que gostam de fazer?
Eu imagino que há de todos os tipos, não gosto de generalizar... mas será que nós viajantes não ficamos egoístas demais? Ou será que somos carentes demais? Vejo blogueiros pelo Instagram, YouTube e Facebook que mostram um mundo fake, soam fake, tem um número de seguidores fake e provavelmente uma vida fake... se eu os invejo, sim – em partes... invejo os privilégios dos super hotéis e longos voos na flat bed com a orelha coberta pelo edredon da classe executiva. Mas fora isso, prefiro "lacrar" com a minha foto no Senegal, num Peugeot 1979 lotado, com uma criança no colo e muitas risadas como plano de fundo.
Ainda sobre as redes sociais, já não fico surpreso quando vejo que Amyr Klink (na minha opinião, o maior viajante brasileiro) tem menos seguidores que alguns blogueiros de dicas furadas em esquinas populares do mundo. Então faz sentido pensar que a maioria dos viajantes têm medo da aventura? O que faz um viajante sair do conforto da sua casa para visitar Lisboa, por exemplo? Será que ele seguirá os blogueiros e check lists de atrações ou tentará uma visita mais autêntica? (veja que isso é uma suposição e não uma depreciação de Lisboa, uma das cidades mais interessantes do mundo).
Atenção: não estou dizendo que eu não aprecio o que é refinado, não mesmo... já morei em hotel cinco estrelas e cruzar o Atlântico na classe executiva já foi parte da minha rotina, gostava muito. O que quero dizer é que o que me move é a AVENTURA e a CURIOSIDADE de viajar, aquela adrenalina que bate quando chego num país longínquo e totalmente desconhecido, é o estar perdido e conversar com as pessoas, aprender o básico da sua língua, é a surpresa de descobrir um restaurante de esquina totalmente local e delicioso, é o fazer mímica para poder me fazer compreender, é chegar numa cidade sem reservas e sem ideia de onde ir!
Também não me considero o “diferentão”, o outro extremo, ou seja, o cara que sai de casa sem um centavo no bolso e consegue dar a volta ao mundo (sim, é possível – mas não é para mim). A falta do mínimo de conforto limita as viagens e sobretudo a disposição para conhecer... ceifa a liberdade da viagem!
Mas sou curioso, esse sim talvez seja o meu valor principal como pessoa... a curiosidade é o combustível principal da aventura, e é o combustível também desse texto... Estive viajando em Dezembro por lugares muito e pouco turísticos do Caribe e observava os viajantes... e fiquei curioso para saber um pouco mais sobre quem são os viajantes brasileiros...
Por isso, jogo a bola para vocês e deixo as questões: quem é o viajante médio de hoje em dia? Seria a sua vaidade maior do que a sua curiosidade? Ele preocupa-se genuinamente com a sustentabilidade dos destinos visitados? O que quer de verdade o viajante de hoje em dia?
Mike Weiss