19/09/2026
Navio Bacalhoeiro Argos a degradação continua. Triste muito Triste!
O Argos apodrece no cais em frente à “Pascoal & Filhos”, empresa que o comprou em 2009 para evitar que o mesmo fosse desmantelado. Desmantelado não foi, mas a ferrugem encarrega-se de o desmantelar.
O estado avançado de degradação em que se encontra o Navio Bacalhoeiro Argos envergonha todos quantos tem a obrigação de preservar o património histórico nacional e local, como a Câmara Municipal de Ílhavo, o Património Cultural, I.P. que está sob a tutela e superintendência do Ministério da Cultura, ou seja, do Governo, do Estado.
O Argos foi e ainda é um lugre-motor bacalhoeiro português construído em 1939, na Holanda pelo estaleiro De Haan & Oerlemans, tendo feito parte da famosa "Frota Branca" e terá efectuado 32 campanhas de pesca, o armador foi a então, Parceria Geral de Pescarias, Lda.
Podemos considerar que Portugal tem ao longo da sua história marítima duas grandes epopeias, a epopeia dos Descobrimentos e a derradeira epopeia, a Pesca do Bacalhau nos mares do Norte.
Oficialmente, a pesca do bacalhau inicia-se na Costa Inglesa, no século XIV tendo sido assinado um acordo com os ingleses em 1353 e na Terra Nova, a partir do século XVI, e só mais tarde devido à escassez de peixe na Terra Nova, os Capitães dos navios se aventuraram nos mares gelados da Gronelândia, durante o século XX, altura que a pesca ao bacalhau foi apelidada de "Faina Maior" não esquecendo a Campanha do Bacalhau incrementada pelo Estado Novo com o objectivo de alimentar o povo português.
Durante a segunda guerra mundial os navios bacalhoeiros que navegavam para o mar do Norte passaram a ter os cascos pintados de branco, tendo ao centro a bandeira nacional e o nome de Portugal em letras grandes escrito a preto. Nessa altura foi efectuado pelo governo português um acordo com o governo alemão para garantir a neutralidade e a segurança dos navios.
Os navios da frota branca que foram preservados até aos dias de hoje:
O Navio Argos, que se encontra em avançado estado de degradação na Gafanha da Nazaré, Ílhavo.
O Navio NTM Creoula, pertence à Marinha Portuguesa e está a aguardar reparações na Base Naval de Lisboa no Alfeite. Tendo em conta que já está a aguardar reparações desde 2021 temo que o caminho possa ser o do Argos.
O Navio Santa Maria Manuela, “Atualmente, o Santa Maria Manuela opera como um navio de treino de mar. Realiza viagens de turismo náutico, expedições científicas, mergulho e ações de sensibilização para a preservação dos oceanos. Qualquer pessoa pode embarcar para viver a experiência de navegar num navio histórico e ajudar a içar as velas.”
O Navio Gazela, está nos Estados Unidos, em 1972 foi vendido ao Philadelphia Seaport Museum, um Museu Marítimo em Filadélfia e continua a navegar, como navio-escola e embaixador da herança marítima portuguesa.
O que fazer com o Navio Bacalhoeiro Argos?
A primeira proposta que eu faria seria de inteira recuperação e a colocação do navio a navegar, tal como num passado não muito longínquo o NTM Creoula e actualmente Navio Santa Maria Manuela.
Dado o estado de degradação que apresenta: Outra hipótese talvez menos dispendiosa e que considero bastante honrosa seria transformar o navio em museu a ser colocado no Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré, perto do Navio-Museu Santo André completando-se assim um espaço ao ar livre de grande valor histórico e cultural, na vila da Gafanha da Nazaré e no Concelho de Ílhavo.
A manter-se o Navio Bacalhoeiro Argos no local onde está atracado, com a degradação em que se encontra está literalmente à espera da “morte”, o que não dignifica o município de Ílhavo, a vila da Gafanha da Nazaré, a memória do que foi a última Epopeia Marítima dos Portugueses, A Pesca do Bacalhau nos Mares do Norte.
O mais grave ainda é que não dignifica a memória dos Grandes Homens que navegaram no Navio Bacalhoeiro Argos enfrentando o nevoeiro, o frio, os icebergues, o mar alteroso. Não dignifica os Marinheiros/Pescadores, que em tantos navios bacalhoeiros perderam a vida na faina do bacalhau, não dignifica a memória de quantos escreveram sobre navios e homens, perpetuando a história da última Epopeia Marítima dos Portugueses, no caso do Argos, o escritor, e marinheiro Alan Villiers.
Alan Villiers terá embarcado no Argos em 1951 numa campanha de pesca nos tempos da pesca à linha com dóris, a bordo dos quais um único homem navegava e pescava. Alan Villiers viria a escreveu o livro A Campanha do Argos descrevendo o navio como dos mais belos veleiros da frota bacalhoeira portuguesa e narrando todas as agruras que passavam os homens na Faina Maior.
Para termos futuro é importante conhecer o passado, só a história, preservada, contada e mostrada, impede que se apague a memória. O Argos tem uma história bem contada, mas precisa que a sua história seja bem preservada, para ser bem mostrada. Não deixem morrer o Argos!
Autoria: António de Lemos
Fotografias efectuadas por: António e Ana de Lemos, 10 de setembro, 2026.
Bibliografia:
Livro: Faina Maior – Autores: Francisco Marques e Ana Maria Lopes – Edição: Quetzal Editores
Livro: Os Navios da Pesca à Linha – Autor: Jean Pierre Andrieux – Edição: Fundação Gil Eannes
Livro: Creoula – Autores: António Santos Carvalho e Ana Lúcia Esteves
Museu Marítimo de Ílhavo - https://lojamuseumaritimo.cm-ilhavo.pt/product/a-campanha-do-argus
Parceria Geral de Pescarias – https://www.iberinform.pt/empresa/21016093/parceria-geral-de-pescarias-lda
Santa Maria Manuela – https://www.santamariamanuela.pt/pt
Navio Gazela – https://homensenaviosdobacalhau.cm-ilhavo.pt/header/navios/show/82
NTM Creoula – https://www.marinha.pt/pt/os_meios/veleiros/Paginas/ntm-creoula.aspx
Utilização da IA, residual.