07/06/2026
O comboio avança a alta velocidade para oeste, dando lugar a uma Sichuan muito mais verde, húmida e montanhosa. Em menos de uma hora, a China futurista das últimas noites transforma-se numa sucessão de bambus, nevoeiro e encostas cobertas de vegetação densa.
É aqui que vivem os pandas gigantes, esses ursos pachorrentos que parecem biologicamente improváveis.
Vivem quase exclusivamente de bambu e passam grande parte do dia a comer ou dormir, contrariando a imagem tradicional de um grande predador.
Escolhemos Panda Valley porque não queríamos um zoológico urbano cheio de multidões e filas intermináveis para fotografar um animal atrás de vidro. Queríamos vê-los num ambiente mais próximo do habitat natural, sem espetáculos ou estruturas criadas para entretenimento turístico.
E efetivamente em Panda Valley o som dominante continua a ser o das folhas de bambu e da natureza envolvente, algo raro num país onde quase tudo parece acontecer rodeado de ecrãs, multidões e ruído constante.
Ao vivo, a primeira impressão é que são desajeitados e absurdamente preguiçosos. Alguns permanecem sentados durante minutos intermináveis apenas a segurar pedaços de bambu entre as patas. Outros dormem completamente imóveis sobre plataformas de madeira, indiferentes à atenção que recebem.
Durante muito tempo, a destruição das florestas de bambu colocou a espécie em risco sério de sobrevivência. Apesar dos avanços nos programas de conservação e reprodução, continuam a existir relativamente poucos pandas em habitat selvagem.
Os red pandas, muito mais pequenos e ativos, acabam quase por roubar parte das atenções. Sobem árvores, atravessam ramos suspensos e desaparecem rapidamente entre as folhas, funcionando como o oposto absoluto dos gigantes sonolentos espalhados pelos recintos principais.
Saímos de Panda Valley a pensar numa das contradições mais curiosas da própria China contemporânea: um país associado à velocidade, crescimento e transformação constante escolheu como símbolo global um animal que passa grande parte do dia simplesmente sentado a comer bambu.