07/06/2020
CO**HA DE SÃO MARTINHO DO PORTO
Situada cerca de 20 km a WSW de Alcobaça, a de todos conhecida por Co**ha de São Martinho do Porto é o que resta de uma reentrância do mar, a antiga “Lagoa de Alfeizerão”, mais propriamente uma laguna, bem mais alargada, navegável desde a barra (uma abertura com cerca de 250 m de largura), entre os actuais Morros de Santana, a sul, e do Farol, a norte, até Tornada, tendo existido uma instalação portuária em Alfeizerão, desde o tempo da ocupação romana até ao século XVI.
Este curioso acidente geográfico do nosso litoral, que, em virtude da sua forma, grosso modo, semicircular (com cerca de 950 metros de diâmetro), lhe mereceu a designação popular de “concha”, enigmático para quem não sabe, explica-se facilmente se soubermos o que se entende por difracção das ondas.
Comecemos por lembrar o que acontece quando, para dar de comer aos peixes de um lago de jardim, lançamos um pedaço de pão para a água, ali em repouso. Ao bater na superfície da água, toda a energia da queda do pedaço de pão é transmitida ao líquido, energia que nele se propaga, deixando ver, à superfície do lago, a propagação de ondas circulares concêntricas que se alastram a toda a superfície.
Lembremos, ainda, que a difracção das ondas é um fenómeno físico que reza: quando uma onda, proveniente de um dado meio, atravessa um orifício, gera, no meio que se segue a esse orifício, o espalhamento ou alargamento de ondas circulares. Uma ideia deste espalhamento pode ser dada pela ondulação na água do lago, atrás descrita.
Resultante do assoreamento da citada antiga “Lagoa de Alfeizerão”, a bela e curiosa forma actual desta baía resulta da difracção da ondulação (vaga) oceânica na dita barra, gerando uma outra que só não é perfeitamente circular porque esta abertura não é suficientemente estreita para funcionar como o dito “orifício” de difracção. Assim, no interior da baía, a ondulação (que aumenta de amplitude à medida que a profundidade diminui, até rebentar na linha da praia) e o areal são, por assim dizer, concêntricos, relativamente a um ponto imaginado a meio da dita barra.
É por isso que, no interior da “concha”, a rebentação da vaga é sempre simultânea em todo o perímetro da praia, com se pode ver na imagem.
Como interventor activo numa política de geoconservação e em resultado das observações que fiz, ao longo dos anos, em muitas ocorrências geológicas nacionais, passíveis de classificação, que divulguei em múltiplos escritos e em intervenções faladas, tenho vindo a propor a distinção de três níveis de geossítios, cuja definição assenta, em especial, nas respectivas dimensões e se coaduna com o tipo de intervenção necessária à respectiva classificação e desejável musealização:
(1) a nível do afloramento - de menor extensão, reúne pequenas ocorrências geológicas com dimensões métricas e decamétricas, como é o caso laje com pegadas de dinossáurios da Pedreira do Avelino, em Sesimbra;
(2) a nível do sítio – de extensão intermédia, à escala da ou das centenas de metros, no qual o visitante circula no seu interior, observando de perto os seus diferentes aspectos e ocorrências de que é exemplo o geomonumento das Pegadas de Dinossáurios na Serra d’Aire;
(3) a nível da paisagem - de maior extensão maior, quilométrica, é passível de observação a partir de um ou mais miradouros. Pertencem a este tipo, entre outros, a Co**ha de S. Martinho do Porto, a par de outros, como o Monumento Natural do Cabo Mondego, as Portas de Ródão, as Caldeiras Vulcânicas da Ilha de S. Miguel, o Vulcão do Pico, o Vale Glaciário do Zêzere, a Pedra da Mua, no Cabo Espichel, e o Polje de Mira-Minde.