16/07/2026
existem encontros que acontecem duas vezes.
o primeiro foi há alguns anos, quando encontrei, quase por acaso, a poesia de Dulce de Montalvo.
uma poetisa de barcelos.
da minha cidade. 🐓
o seu verdadeiro nome era Maria do Carmo de Lima Bandeira Ferreira. nasceu em 1914, no mesmo ano da minha bisavó materna, também ela Maria.
escreveu sobre a mulher, sobre o amor, sobre a vida e colaborou em jornais como o barcelense, o jornal de braga e a revista portugal feminino.
morreu com apenas 23 anos.
vibrações da vida, o seu único livro, foi publicado depois da sua morte.
hoje, a Dulce é quase uma ausência na memória coletiva da sua própria terra.
mas, desde o dia em que a descobri, nunca mais me saiu do pensamento.
há poemas que regresso vezes sem conta: o minho, porque gosto de ti, cabelos brancos ou poetisa. há uma delicadeza e uma inquietação na sua escrita que sempre me tocaram profundamente.
através das palavras, sinto semelhanças!
na feira do livro de barcelos aconteceu o segundo encontro.
o livro estava escondido numa estante.
peguei nele sem hesitar.
o senhor do stand olhou para mim, surpreendido, e perguntou:
— conhece a Dulce de Montalvo?
respondi apenas:
— conheço. gosto muito dela.
sorriu, admirado. como se fosse raro alguém da terra conhecer uma das suas próprias poetisas.
e talvez seja mesmo.
foi nesse instante que percebi, mais uma vez, porque faço o que faço.
não para descobrir mulheres extraordinárias.
elas sempre existiram.
faço-o para que deixem de ser desconhecidas na cidade onde viveram.
agora, a Dulce continua a caminhar comigo no walking tour poético de barcelos.
mas desta vez, fá-lo também através das suas próprias palavras.
e mal posso esperar por levar esta relíquia comigo e permitir que tu também sintas, vejas, toques na sua obra e, assim como eu, vibres com a mulher, com a sua história e com o seu património. 🦋