24/06/2026
(English in comments)
Seremos apenas vĂtimas?
Em 2002, Patricia Cronin apresentou uma escultura baseada em si e na sua parceira, Deborah Kass: duas mulheres deitadas numa cama, partilhando um abraço Ăntimo sob um lençol, com os pĂ©s a tocarem-se suavemente. Antes da legalização do casamento entre pessoas do mesmo s**o no estado de Nova Iorque, em 2011, a sua relação sĂł podia ser legalmente reconhecida na morte, daĂ o tĂtulo, âMemorial a um Casamentoâ. Trata-se do primeiro e Ășnico monumento Ă igualdade no casamento no mundo.
Conheci recentemente a artista e a sua obra incrĂvel, e voltei a confrontar-me com um desconforto: a forma como as pessoas q***r sĂŁo tantas vezes representadas como vĂtimas: em monumentos, na histĂłria e nas narrativas. Um exemplo disso Ă© este Memorial.
Em Lisboa, existe o âMemorial Ă s VĂtimas da Homofobia, Lesbofobia e Transfobiaâ, inaugurado no inĂcio da Marcha do Orgulho de 2017. A ideia foi de AntĂłnio Serzedelo e a obra realizada por Rui Pereira, baseando-se na ideia simbĂłlica de portas abertas, convidando os visitantes a passar do passado para o futuro. Enquadra a memĂłria atravĂ©s da ausĂȘncia e da violĂȘncia, levando-nos a refletir, a lamentar e a recordar. Como se lĂȘ na legenda, Ă© âum recanto de reflexĂŁo em torno dos direitos humanos e da diversidade sexual, contra a violĂȘncia e o preconceitoâ.
Mas por que razĂŁo uma das Ășnicas representaçÔes da comunidade LGBTQ+ em Lisboa Ă© uma obra que fala de violĂȘncia e nos coloca apenas como vĂtimas? Poderia ser uma obra que falasse do amor, do poder coletivo e das conquistas das pessoas q***r? SerĂĄ tempo de pensarmos em outros monumentos e esculturas na cidade que nos representam nos nossos afetos e na nossa existĂȘncia?
Sem diminuir de forma alguma a importùncia dessa obra, toda a representação é importante! Mas ver uma escultura que representa o amor entre duas mulheres emocionou-me. E lembrou-me de uma falta que existe aqui hå muito tempo.