21/09/2026
Rua Coronel Raúl Peres.
Há ruas que nascem devagar, seguindo caminhos que já lá estavam. E há outras que chegam quase como uma declaração de intenções.
A Rua do Coronel Raúl Peres pertence claramente ao segundo grupo.
As fotografias das obras, tiradas no início dos anos 60, são particularmente impressionantes porque mostram a Foz quase irreconhecível. Onde hoje passamos sem pensar duas vezes, havia terra revolvida, enormes escavações, madeira de cofragem, carris provisórios, guindastes, montes de pedra e homens a trabalhar praticamente sobre o Atlântico. Ao fundo, numa das imagens, reconhece-se o Molhe de Felgueiras e o seu farolim. É a nossa Foz - mas apanhada a meio de uma transformação radical.
E para perceber o que estava a acontecer é preciso recuar quase exactamente cem anos.
Antes da Avenida do Brasil, antes dos automóveis e antes desta larga frente marítima, existia aqui a Rua da Praia, também chamada Rua da Praia dos Banhos.
O nome dizia tudo.
Em meados do século XIX, quando a Foz começava a afirmar-se como estância balnear do Porto, esta era a rua que acompanhava o pequeno mundo das praias. Em 1863, a Praia do Ourigo já era descrita como muito procurada e, no ano seguinte, encontramos oficialmente a designação Rua da Praia dos Banhos.
Era a Foz daquela vida balnear de que já falámos tantas vezes: famílias que deixavam temporariamente o centro do Porto para passar semanas junto ao mar; os banhos tomados de madrugada; as barracas de lona montadas na praia; os banheiros profissionais que conduziam os banhistas à água; os três mergulhos quase ritualizados; os passeios, visitas e tardes demoradas junto ao Atlântico.
A rua fazia parte dessa escala. Não era uma avenida monumental. Era uma rua encostada às casas e às praias, irregular e intimamente ligada ao relevo da costa.
Mas a Foz mudou.
Primeiro deixou progressivamente de ser apenas o lugar para onde se ia no Verão e tornou-se um lugar onde se vivia durante todo o ano. Entre finais do século XIX e as primeiras décadas do XX surgiram palacetes, chalets e novas moradias. A abertura e regularização da Avenida do Brasil deram à frente marítima outra dimensão. Depois chegou o automóvel, e com ele uma maneira completamente diferente de imaginar a cidade.
É aqui que entra Raúl de Andrade Peres.
Militar, combatente da Primeira Guerra Mundial e Presidente da Câmara do Porto entre 1926 e 1930, Raúl Peres ficou especialmente associado às obras de modernização da cidade e da Foz. As fontes da época atribuíam-lhe a abertura de novas artérias e a transformação de uma orla marítima que ainda consideravam antiquada e desconfortável numa zona moderna e atraente.
Há, aliás, uma ironia interessante: a rua que viria a receber o seu nome só seria construída décadas depois da sua presidência.
O projecto de uma “nova ligação da Avenida do Brasil à Esplanada do Castelo” foi aprovado em 21 de Junho de 1960. Em 1962 avançava o concurso para o arruamento que estabeleceria a ligação entre a Rua da Senhora da Luz e a Rua da Praia; em Abril de 1963 era publicitada a empreitada de ligação da Avenida do Brasil à Rua da Praia.
E então começaram as obras que vemos nestas fotografias.
Não se tratava simplesmente de pavimentar uma rua existente. Era necessário fabricar terreno urbano onde a relação entre as casas, as rochas e o mar era muito mais apertada. Construiu-se uma poderosa muralha de protecção costeira e, sobre ela, uma estrutura em betão armado capaz de receber o novo arruamento.
É por isso que algumas destas fotografias parecem quase obras portuárias. A escala do paredão é gigantesca quando comparada com as casas que ficaram por trás dele.
E essa comparação diz muito sobre aquilo que estava a acontecer.
A antiga Rua da Praia pertencia à Foz dos banhos.
A nova rua pertencia à Foz do automóvel.
Ligava finalmente a Avenida do Brasil à Esplanada do Castelo, criando continuidade ao longo da frente marítima e substituindo parcialmente a velha Rua da Praia. A pequena rua balnear do século XIX era absorvida pela infraestrutura urbana do século XX.
Entretanto, faltava-lhe um nome.
Raúl Peres morrera em 2 de Novembro de 1961, aos 84 anos. Curiosamente, ainda em Abril desse ano, o irmão, Armando Peres, sugerira à Câmara que uma artéria do Porto recebesse o seu nome “enquanto vivo”. Não aconteceu. Poucas semanas depois da sua morte, a proposta voltou a ser feita.
Em Dezembro de 1963, a Comissão Municipal de Toponímia encontrou uma solução particularmente apropriada: dar ao novo arruamento, que substituiria parcialmente a Rua da Praia e ligaria a Avenida do Brasil à Esplanada do Castelo, o nome de Rua do Coronel Raúl Peres.
Havia nisso uma espécie de justiça urbanística. A rua homenageava precisamente um homem cuja passagem pela Câmara ficara associada à modernização da Foz.
A nova artéria foi finalmente aberta ao trânsito em 23 de Novembro de 1964.
E talvez seja essa data que torne estas fotografias tão interessantes.
Porque aquilo que estamos a ver não é apenas uma obra pública de 1964.
Estamos a assistir ao encontro de duas Fozes.
De um lado permanece a velha Foz: as casas quase em cima das rochas, roupa pendurada nas varandas, muros de pedra, pequenas praias e o mar entrando praticamente pela rua.
Do outro nasce a Foz moderna: betão armado, grandes muros de contenção, circulação automóvel, continuidade viária e uma frente marítima transformada numa verdadeira avenida urbana.
A Rua do Coronel Raúl Peres ficou precisamente sobre essa fronteira.
E há talvez uma bela maneira de resumir toda a história: durante quase cem anos, aquela fora a Rua da Praia dos Banhos, uma rua cujo nome explicava por que razão as pessoas vinham à Foz.
Em 1964, parte dela desapareceu para dar lugar a uma rua que explicava outra coisa: como a Foz tinha deixado de ser apenas um lugar onde o Porto vinha a banhos para se tornar definitivamente parte da cidade.
Muito obrigado a todos!