Architectours Porto - Urban Geography

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Architectours Porto - Urban Geography Procuramos contar e descobrir o Porto que não vem nos guias, histórias de gente, de lugares, dos todos os continuam a viver através do legado que nos deixaram

"(...) mas a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, contém-no escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes". - Ítalo Calvino

Em Abril de 1883, Luís obtém licença para acrescentar um andar a um prédio na Rua Bela. Em Abril de 1889, apresenta outr...
21/10/2026

Em Abril de 1883, Luís obtém licença para acrescentar um andar a um prédio na Rua Bela. Em Abril de 1889, apresenta outro pedido, desta vez para alterar os portais do edifício-
E, a 5 de Setero desse ano, recebe autorização para uma nova ampliação, com o acrescento de mais um andar e a abertura de uma janela na frente da Rua do Passeio Alegre. Desta vez, o processo identifica expressamente o edifício com frentes para a Rua Bela e para o Passeio Alegre.

20/10/2026
A Ponte do Freixo: quando o Porto abriu caminho para NascenteHá fotografias que mostram muito mais do que uma obra de en...
13/10/2026

A Ponte do Freixo: quando o Porto abriu caminho para Nascente

Há fotografias que mostram muito mais do que uma obra de engenharia. Esta, captada durante os trabalhos finais dos acessos à Ponte do Freixo, mostra um dos momentos mais decisivos da transformação urbana do Porto nas últimas décadas do século XX.

Onde antes existiam quintas, caminhos rurais, pequenas explorações agrícolas e núcleos habitacionais relativamente isolados, surgia agora uma impressionante sucessão de viadutos, nós rodoviários e faixas de asfalto.

Era uma nova geografia que se desenhava na zona oriental da cidade, alterando profundamente a relação entre Campanhã, Noeda, Azevedo e as margens do Douro.

Não desapareceu apenas uma parcela de território agrícola. Perdeu-se também uma determinada forma de habitar a periferia da cidade, feita de caminhos, muros, quintas, hortas e relações de vizinhança que resistiam à expansão urbana.

E, contudo, a mesma obra que dividiu o território também o aproximou.

Para lugares como Azevedo, durante muito tempo relativamente afastados dos principais eixos de circulação, a construção dos novos acessos representou uma alteração profunda da sua posição na cidade. Aquilo que antes parecia distante tornou-se mais acessível. As deslocações passaram a fazer-se com maior rapidez e a zona oriental ganhou uma centralidade rodoviária que nunca tivera.

Era, de certa forma, uma contradição da modernidade: aproximavam-se lugares à escala da cidade e da metrópole, mas criavam-se novas barreiras à escala do bairro, da rua e do percurso a pé.

A Ponte do Freixo, projectada pelos engenheiros António Reis e Daniel de Sousa, tornou-se uma peça fundamental desta transformação.

Com cerca de 705 metros de comprimento e oito vias de circulação, a nova travessia veio completar uma etapa decisiva da VCI e oferecer à cidade uma capacidade de circulação até então inexistente naquela zona.

Três décadas depois, é difícil imaginar o Porto sem esta ligação. Mas também é difícil olhar para esta fotografia sem pensar no território que existia antes dela.

A história da Ponte do Freixo não é, por isso, apenas a história de uma cidade que conseguiu finalmente circular melhor.

É também a história de uma periferia rural que se transformou em território metropolitano, de lugares que ganharam acessibilidade enquanto perdiam parte da sua identidade e de uma paisagem que foi sacrificada em nome de uma nova ideia de progresso.

A Ponte foi inaugurada a 16 de Setembro de 1995.

Henrique Moreira,  O escultor que deu rosto à cidade do Porto.Há artistas cuja obra encontramos nos museus. Outros, poré...
09/10/2026

Henrique Moreira, O escultor que deu rosto à cidade do Porto.

Há artistas cuja obra encontramos nos museus. Outros, porém, tornam-se tão presentes na vida quotidiana de uma cidade que acabamos por deixar de reparar neles. As suas esculturas transformam-se em pontos de encontro, referências urbanas, lugares de memória.

Passamos por elas, fotografamo-las, reconhecemo-las desde a infância, muitas vezes sem sabermos quem lhes deu forma.
Henrique Moreira pertence a esta segunda categoria. Poucos escultores terão contribuído tanto para a construção da identidade visual do Porto ao longo do século XX. E poucos terão conseguido estabelecer uma relação tão próxima entre a escultura, a arquitectura e a vida da cidade.

A fotografia que acompanha esta publicação é particularmente reveladora. Nela encontramos o Mestre Henrique Moreira junto de um dos imponentes Atlantes destinados à fachada dos Paços do Concelho do Porto. A figura masculina, de musculatura poderosa, parece suportar sobre os ombros todo o peso da arquitectura. Ao seu lado, o escultor, sentado numa escada de madeira, observa a obra monumental que nasce do seu trabalho.
É uma imagem extraordinária, não apenas pela escala da escultura, mas pelo contraste entre a força quase sobre-humana do Atlante e a serenidade do homem que lhe deu forma.

É também uma oportunidade para recordarm artista que, de certa maneira, ajudou a esculpir o próprio Porto.

Henrique Araújo Moreira nasceu em Avintes, Vila Nova de Gaia, a 9 de Maio de 1890. Em 1905, com apenas quinze anos, ingressou na Academia Portuense de Belas Artes, onde encontrou alguns dos nomes fundamentais da cultura artística portuguesa, entre os quais António Teixeira Lopes, José de Brito, Sousa Pinto e o arquitecto Marques da Silva.

Foi precisamente no atelier de Teixeira Lopes que iniciou o seu percurso profissional, antes de desenvolver uma carreira independente que se prolongaria durante várias décadas. A sua formação assentava na tradição académica, no estudo da anatomia humana, no desenho rigoroso e na observação da natureza. Mas seria a capacidade de transformar essa aprendizagem numa linguagem escultórica acessível, expressiva e monumental que lhe permitiria conquistar um lugar tão particular na cidade.

Obrigado a todos!

Há ruas que, sem parecerem particularmente monumentais, conseguem contar um momento inteiro da história da arquitectura....
28/09/2026

Há ruas que, sem parecerem particularmente monumentais, conseguem contar um momento inteiro da história da arquitectura. A Rua do Paraíso é uma delas.

Nesta imagem, quase nos extremos da mesma frente urbana, aparecem dois edifícios separados por apenas um ano: à esquerda, o prédio amarelo, projectado em 1933 por Francisco de Oliveira Ferreira; à direita, o edifício azul, a Casa Júlio César Eugénio, projectada em 1934 por Manuel Marques e Manuel Amoroso Lopes, com o engenheiro Jorge Vieira Bastian. À primeira vista, porém, dificilmente diríamos que são praticamente contemporâneos.

No edifício de Oliveira Ferreira ainda encontramos uma arquitectura muito ligada à composição tradicional da fachada urbana: simetria, janelas verticais, pequenas varandas salientes, guardas de ferro, molduras e apontamentos decorativos. Isso não significa que Oliveira Ferreira estivesse alheado da modernidade; pelo contrário, a sua obra demonstra que conhecia e utilizava linguagens muito diversas. É precisamente isso que torna a comparação interessante: em 1933, um arquitecto podia conhecer perfeitamente as experiências modernas e, ainda assim, optar aqui por uma linguagem que mantinha uma relação evidente com a casa burguesa portuense e com a tradição académica.

Basta avançarmos alguns metros e um ano para encontrarmos quase o oposto. Manuel Marques e Amoroso Lopes tinham ambos formação ligada à Escola de Belas Artes do Porto, mas os seus percursos ajudam a explicar a abertura a outras linguagens. Marques trabalhou no atelier de Marques da Silva e prosseguiu depois uma longa formação em Paris, passando pelas Artes Decorativas, pelas Belas-Artes e pela exposição de 1925, onde contactou directamente com a afirmação da Art Déco. Amoroso Lopes, por seu lado, também partiu de uma formação Beaux-Arts, mas teve uma experiência particularmente interessante no campo do desenho gráfico e da publicidade, trabalhando com as Propagandas Caldevilla. Essa relação com a composição gráfica, a imagem e a comunicação visual ajuda a perceber a singularidade de um percurso que acabaria por se cruzar repetidamente com o de Marques. Nos primeiros anos da década de 1930, os dois formavam já uma parceria consistente, responsável por obras como a Farmácia Vitália e a Casa Armando Peres.

E é nessa colaboração que nasce o edifício azul. Aqui desaparecem quase por completo as varandas, as molduras e o ornamento aplicado. O telhado esconde-se atrás de um parapeito; a fachada transforma-se numa superfície contínua; são os volumes, os planos e o ritmo das janelas que passam a construir a expressão arquitectónica. Não estamos simplesmente perante um edifício “mais simples”: estamos perante outra maneira de conceber arquitectura. A parede deixa de ser o suporte onde se colocam elementos decorativos e torna-se ela própria parte de uma composição abstracta.

É talvez isso que torna estes dois edifícios tão reveladores. A modernidade arquitectónica não chegou ao Porto numa data precisa, substituindo, de um dia para o outro, uma arquitectura “antiga” por uma arquitectura “nova”. Durante os anos 1930, tradição académica, Art Déco, racionalismo e primeiras experiências modernistas coexistiam, por vezes na obra dos mesmos arquitectos.

Na Rua do Paraíso podemos literalmente vê-lo acontecer: 1933 de um lado, 1934 do outro, apenas alguns metros e alguns meses de distância, mas duas maneiras radicalmente diferentes de imaginar a cidade.

Rua Coronel Raúl Peres.Há ruas que nascem devagar, seguindo caminhos que já lá estavam. E há outras que chegam quase com...
21/09/2026

Rua Coronel Raúl Peres.

Há ruas que nascem devagar, seguindo caminhos que já lá estavam. E há outras que chegam quase como uma declaração de intenções.

A Rua do Coronel Raúl Peres pertence claramente ao segundo grupo.

As fotografias das obras, tiradas no início dos anos 60, são particularmente impressionantes porque mostram a Foz quase irreconhecível. Onde hoje passamos sem pensar duas vezes, havia terra revolvida, enormes escavações, madeira de cofragem, carris provisórios, guindastes, montes de pedra e homens a trabalhar praticamente sobre o Atlântico. Ao fundo, numa das imagens, reconhece-se o Molhe de Felgueiras e o seu farolim. É a nossa Foz - mas apanhada a meio de uma transformação radical.

E para perceber o que estava a acontecer é preciso recuar quase exactamente cem anos.

Antes da Avenida do Brasil, antes dos automóveis e antes desta larga frente marítima, existia aqui a Rua da Praia, também chamada Rua da Praia dos Banhos.

O nome dizia tudo.

Em meados do século XIX, quando a Foz começava a afirmar-se como estância balnear do Porto, esta era a rua que acompanhava o pequeno mundo das praias. Em 1863, a Praia do Ourigo já era descrita como muito procurada e, no ano seguinte, encontramos oficialmente a designação Rua da Praia dos Banhos.

Era a Foz daquela vida balnear de que já falámos tantas vezes: famílias que deixavam temporariamente o centro do Porto para passar semanas junto ao mar; os banhos tomados de madrugada; as barracas de lona montadas na praia; os banheiros profissionais que conduziam os banhistas à água; os três mergulhos quase ritualizados; os passeios, visitas e tardes demoradas junto ao Atlântico.

A rua fazia parte dessa escala. Não era uma avenida monumental. Era uma rua encostada às casas e às praias, irregular e intimamente ligada ao relevo da costa.

Mas a Foz mudou.

Primeiro deixou progressivamente de ser apenas o lugar para onde se ia no Verão e tornou-se um lugar onde se vivia durante todo o ano. Entre finais do século XIX e as primeiras décadas do XX surgiram palacetes, chalets e novas moradias. A abertura e regularização da Avenida do Brasil deram à frente marítima outra dimensão. Depois chegou o automóvel, e com ele uma maneira completamente diferente de imaginar a cidade.

É aqui que entra Raúl de Andrade Peres.

Militar, combatente da Primeira Guerra Mundial e Presidente da Câmara do Porto entre 1926 e 1930, Raúl Peres ficou especialmente associado às obras de modernização da cidade e da Foz. As fontes da época atribuíam-lhe a abertura de novas artérias e a transformação de uma orla marítima que ainda consideravam antiquada e desconfortável numa zona moderna e atraente.

Há, aliás, uma ironia interessante: a rua que viria a receber o seu nome só seria construída décadas depois da sua presidência.

O projecto de uma “nova ligação da Avenida do Brasil à Esplanada do Castelo” foi aprovado em 21 de Junho de 1960. Em 1962 avançava o concurso para o arruamento que estabeleceria a ligação entre a Rua da Senhora da Luz e a Rua da Praia; em Abril de 1963 era publicitada a empreitada de ligação da Avenida do Brasil à Rua da Praia.

E então começaram as obras que vemos nestas fotografias.

Não se tratava simplesmente de pavimentar uma rua existente. Era necessário fabricar terreno urbano onde a relação entre as casas, as rochas e o mar era muito mais apertada. Construiu-se uma poderosa muralha de protecção costeira e, sobre ela, uma estrutura em betão armado capaz de receber o novo arruamento.

É por isso que algumas destas fotografias parecem quase obras portuárias. A escala do paredão é gigantesca quando comparada com as casas que ficaram por trás dele.

E essa comparação diz muito sobre aquilo que estava a acontecer.

A antiga Rua da Praia pertencia à Foz dos banhos.

A nova rua pertencia à Foz do automóvel.

Ligava finalmente a Avenida do Brasil à Esplanada do Castelo, criando continuidade ao longo da frente marítima e substituindo parcialmente a velha Rua da Praia. A pequena rua balnear do século XIX era absorvida pela infraestrutura urbana do século XX.

Entretanto, faltava-lhe um nome.

Raúl Peres morrera em 2 de Novembro de 1961, aos 84 anos. Curiosamente, ainda em Abril desse ano, o irmão, Armando Peres, sugerira à Câmara que uma artéria do Porto recebesse o seu nome “enquanto vivo”. Não aconteceu. Poucas semanas depois da sua morte, a proposta voltou a ser feita.

Em Dezembro de 1963, a Comissão Municipal de Toponímia encontrou uma solução particularmente apropriada: dar ao novo arruamento, que substituiria parcialmente a Rua da Praia e ligaria a Avenida do Brasil à Esplanada do Castelo, o nome de Rua do Coronel Raúl Peres.

Havia nisso uma espécie de justiça urbanística. A rua homenageava precisamente um homem cuja passagem pela Câmara ficara associada à modernização da Foz.

A nova artéria foi finalmente aberta ao trânsito em 23 de Novembro de 1964.

E talvez seja essa data que torne estas fotografias tão interessantes.

Porque aquilo que estamos a ver não é apenas uma obra pública de 1964.

Estamos a assistir ao encontro de duas Fozes.

De um lado permanece a velha Foz: as casas quase em cima das rochas, roupa pendurada nas varandas, muros de pedra, pequenas praias e o mar entrando praticamente pela rua.

Do outro nasce a Foz moderna: betão armado, grandes muros de contenção, circulação automóvel, continuidade viária e uma frente marítima transformada numa verdadeira avenida urbana.

A Rua do Coronel Raúl Peres ficou precisamente sobre essa fronteira.

E há talvez uma bela maneira de resumir toda a história: durante quase cem anos, aquela fora a Rua da Praia dos Banhos, uma rua cujo nome explicava por que razão as pessoas vinham à Foz.

Em 1964, parte dela desapareceu para dar lugar a uma rua que explicava outra coisa: como a Foz tinha deixado de ser apenas um lugar onde o Porto vinha a banhos para se tornar definitivamente parte da cidade.

Muito obrigado a todos!

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