Architectours Porto - Urban Geography

Architectours Porto - Urban Geography Procuramos contar e descobrir o Porto que não vem nos guias, histórias de gente, de lugares, dos todos os continuam a viver através do legado que nos deixaram

"(...) mas a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, contém-no escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes". - Ítalo Calvino

03/09/2026
A Estação de Zoologia Marítima, durante muitos anos conhecida pelos portuenses simplesmente como o Aquário da Foz, tem u...
09/08/2026

A Estação de Zoologia Marítima, durante muitos anos conhecida pelos portuenses simplesmente como o Aquário da Foz, tem uma história longa — e, infelizmente, uma história em que a ciência convive quase sempre com a precariedade, as tempestades e um certo abandono.

Na sua origem encontramos Augusto Pereira Nobre, nascido em Leça da Palmeira em 1865. Zoólogo e professor universitário, seria o terceiro reitor da Universidade do Porto, senador e uma das figuras fundamentais para o desenvolvimento das ciências zoológicas na cidade. Esteve na génese do Gabinete de Zoologia da Universidade e manteve uma relação próxima com outra das grandes figuras científicas portuenses, Abel Salazar. Curiosamente, ambos morreriam em 1946: Abel Salazar com apenas 57 anos e Augusto Nobre já com 81.

Nobre defendia uma concepção muito prática do ensino das ciências. Para ele, não bastava estudar zoologia nos livros ou observar exemplares conservados dentro de vitrinas: era preciso recolher, observar, dissecar e estudar os organismos vivos no seu próprio meio.

Inspirado pela Estação de Biologia Marítima de Sète, perto de Montpellier, onde estagiara, começou por criar um pequeno laboratório marítimo em Leça da Palmeira, onde vivia, sustentado em grande medida à sua própria custa. A ambição era simples, mas bastante inovadora: colocar estudantes e investigadores em contacto directo com o Atlântico.

Em 1914 nasceu finalmente a Estação de Zoologia Marítima. Mas Augusto Nobre compreendeu também que a ciência não deveria permanecer fechada dentro da universidade. Era necessário mostrá-la.

Por isso, em 1927, o laboratório foi ampliado e transformado também em aquário público. Durante décadas, investigação científica e divulgação coexistiram aqui, praticamente em cima do mar.

E não era um aquário insignificante. Existiam cerca de 36 tanques destinados à exposição de animais de água doce, salobra e salgada. Havia um grande aquário central para animais mais corpulentos ou sensíveis, outros tanques de menores dimensões e ainda terrários destinados a anfíbios. Para várias gerações de portuenses, este pequeno edifício da Foz constituiu uma primeira janela para o mundo submarino.

O problema estava precisamente naquilo que tornava a localização tão interessante: o Atlântico.

A proximidade imediata do oceano permitia estudar a fauna marítima quase à porta do laboratório, mas deixava o edifício permanentemente exposto à maresia, à ondulação e às tempestades. Com o passar das décadas, as instalações tornaram-se cada vez mais modestas para as necessidades da investigação e cada vez mais difíceis de conservar.

Em 1963, uma violenta tempestade provocou danos de tal dimensão que foi necessário escorar os muros. Chegou então a estudar-se a construção de uma nova estação, concebida de raiz, na frente do actual Parque da Cidade. O projecto nunca avançou. O aquário público acabaria por fechar e o edifício regressou essencialmente à sua função original de investigação.

Quinze anos depois, o mar voltou.

Uma nova tempestade causou estragos ainda mais graves: arrancou o telhado da casa do guarda, destruiu a nora com o seu característico catassol e derrubou paredes de alguns dos aquários. A água — e com ela parte do conteúdo dos tanques — escoou directamente para o oceano. Foi necessário retirar parte do espólio e a funcionalidade da estação ficou seriamente comprometida.

Há aqui uma ironia difícil de evitar: o laboratório construído para estudar o mar foi, repetidamente, destruído pelo próprio mar.

Apesar de todas estas vicissitudes, a Estação de Zoologia Marítima permaneceu ligada à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e é referida como espaço onde continuaram a ser realizados trabalhos experimentais e investigação associada à formação de mestres e doutores.

Mas é justamente aqui que a história se torna um pouco estranha.

Porque, olhando hoje para o edifício, essa actividade é difícil de adivinhar. A imagem exterior é a de uma instalação envelhecida, pouco cuidada e aparentemente subutilizada. O velho Aquário Augusto Nobre parece viver num estado de suspensão: oficialmente associado à investigação universitária, mas fisicamente com o aspecto de um lugar que ficou à margem da enorme evolução que as ciências do mar entretanto conheceram no Porto.

E talvez seja esse o verdadeiro paradoxo deste edifício.

Porque a zoologia e a investigação marítima no Porto estão muito longe de ter desaparecido. Pelo contrário, aquilo que Augusto Nobre começou de forma quase artesanal multiplicou-se e especializou-se.

Na Aguda existe hoje a Estação Litoral da Aguda, com o seu aquário e Museu das Pescas. O antigo Museu de Zoologia da Universidade foi integrado no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto. O CIIMAR — Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental — tornou-se um importante centro de investigação dedicado aos oceanos e ao ambiente, possuindo inclusivamente um Laboratório de Ecotoxicologia que leva o nome de Augusto Nobre. E, no domínio da divulgação ao grande público, temos ainda o Sea Life Porto.

Ou seja, a ideia que Augusto Nobre defendia há mais de um século — investigar o mar, ensinar através da observação e aproximar a população da vida marítima — não morreu. Espalhou-se pela cidade e ganhou uma dimensão que ele dificilmente poderia ter imaginado.

O que parece ter ficado para trás foi precisamente o lugar onde tudo começou.

Hoje, olhando para esta pequena estação junto ao Atlântico, talvez a questão já não seja apenas saber se ainda se fazem aqui trabalhos experimentais. É perceber que futuro se pretende dar a um edifício que representa uma etapa fundamental da história científica da Universidade e da própria cidade.

Porque há qualquer coisa de profundamente contraditório em termos um laboratório moderno chamado Augusto Nobre e, ao mesmo tempo, vermos a velha estação que materializou as suas ideias há mais de cem anos apresentar-se com este aspecto quase esquecido.

A ciência marítima do Porto está viva e recomenda-se. O seu berço, infelizmente, parece bastante menos saudável.

Já agora, Augusto Nobre viveu na Avenida de Montevidéu, n. 414 (a casa ainda lá se encontra) e o irmão, o poeta António Nobre, na Avenida do Brasil, 531 (agora parte de um complexo formado por dois edifícios).

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E se o Palacete de José Augusto Dias tivesse chegado aos nossos dias?Por finais do século XIX, o Engenheiro António da S...
05/08/2026

E se o Palacete de José Augusto Dias tivesse chegado aos nossos dias?

Por finais do século XIX, o Engenheiro António da Silva era um dos homens mais atarefados da cidade. Enquanto o Porto crescia impulsionado pelo comércio, pela indústria e pelo regresso de capitais do Brasil, a Foz transformava-se rapidamente de uma pequena comunidade de pescadores e lavradores no mais prestigiado lugar de veraneio da burguesia portuense. Médicos prescreviam os banhos de mar, o eléctrico aproximava a costa do centro da cidade e uma nova elite procurava na arquitectura a expressão do seu sucesso económico e cultural.

Foi neste contexto que nasceram alguns dos mais notáveis palacetes da Foz. Encomendados por famílias como os Andresen, os Tait, os Santos Júnior ou José Augusto Dias, estes edifícios eram muito mais do que grandes casas. Implantados em amplos jardins, cuidadosamente orientados para o mar e organizados em torno de espaços de recepção iluminados por lanternins, representavam uma nova forma de habitar. A casa deixava de ser apenas abrigo para se tornar cenário da vida familiar, da representação social e da relação quotidiana com a paisagem atlântica.

A arquitectura de António da Silva soube interpretar esse momento como poucos. Inspirado pelas correntes francesas e pelos princípios de Viollet-le-Duc, abandonou progressivamente o academismo rígido do século XIX para criar uma linguagem própria, onde volumes assimétricos, torres-miradouro, grandes beirais de madeira, coruchéus, coberturas complexas e uma notável atenção à sequência dos espaços conferiam personalidade a cada residência. Mais do que desenhar fachadas elegantes, desenhava percursos, enquadramentos e experiências de habitar.

Essas torres, que hoje parecem quase inseparáveis da imagem da Foz, eram muito mais do que um capricho decorativo. Dominavam a paisagem, ofereciam vistas privilegiadas sobre o oceano e afirmavam a posição social dos seus proprietários. Eram símbolos de uma época em que a arquitectura se tornava também linguagem de prestígio e de afirmação pessoal.

Mas a própria cidade continuou a mudar. A partir da década de 1920, este modelo de grande palacete isolado começou a desaparecer. A nova casa unifamiliar, mais compacta, confortável e adaptada a um modo de vida menos dependente do serviço doméstico, substituiu progressivamente estas grandes residências. Durante o século XX, muitas foram abandonadas, divididas ou adaptadas a novos usos, tornando-se sedes de empresas, bancos, clínicas ou instituições, sobrevivendo graças à qualidade da sua construção, mas já desligadas da função para que tinham sido concebidas.

Curiosamente, é já no século XXI que muitos destes edifícios parecem reencontrar o seu lugar. Uns renascem através da hotelaria, outros graças à possibilidade de construir nos seus vastos jardins, permitindo financiar a recuperação dos palacetes históricos. Não regressam exactamente como residências burguesas de finais de Oitocentos, mas voltam a ser espaços vividos, cuidados e valorizados. A cidade compreendeu finalmente que o seu património não constitui um obstáculo ao futuro, mas uma das suas maiores riquezas.

Infelizmente, nem todos chegaram até nós. Entre as perdas mais significativas encontra-se o Palacete José Augusto Dias, (demolido na década de 1970 - à data pertencente à família Barbosa Leão, salvo erro, para o bloco de habitação que hoje temos), numa época em que a consciência patrimonial ainda era insuficiente para reconhecer o valor urbano, arquitectónico e histórico destas casas. O seu desaparecimento privou a Foz de mais um capítulo da extraordinária obra de António da Silva, mas também nos recorda a responsabilidade de preservar aquilo que sobreviveu.

Hoje, quando percorremos a Avenida de Montevideu, o Passeio Alegre ou as ruas que descem ao Atlântico, continuamos a reconhecer a cidade que estes arquitectos e proprietários ajudaram a construir. Mesmo onde os edifícios desapareceram, permanece a memória de uma época em que a Foz descobriu uma nova forma de viver: entre a arquitectura, o jardim e o mar. É essa herança, feita tanto de permanências como de ausências, que continua a dar identidade a um dos lugares mais singulares do Porto.

Olhando para imagem, se em vez do bloco de habitação, hoje ficasse lá, também não deixava de parecer um elemento muito estranho no conjunto. Enquadrado pela casa "Maria Borges" do arquitecto Viana de Lima a norte, "Jose Pratas", as casas geminadas das irmãs "Ventura Santos Reis" e "Henrique Marinho" (de Manoel Marques) a sul. E, claro, o "arranha-céus" a nascente.

Porém, nada de muito diferente desta manta de retalhos que é o Porto, muitas vezes mal-ajustada, mas isso é uma bênção, pois nos deixa encontrar a pré-existência. Concretizando, na próxima vez que lá passarem, ou se puxarem o google maps, verificarão que ainda hoje, cinco quartos de século mais tarde, os pilares originais do muro ainda lá estão a marcar os limites daquela frente. Espreitem!

Muito obrigado a todos!

A gentrificação do Porto não começou nestes nossos dias. Talvez tenha apenas mudado de nome.Esta fotografia mostra a act...
02/08/2026

A gentrificação do Porto não começou nestes nossos dias. Talvez tenha apenas mudado de nome.

Esta fotografia mostra a actual Avenida do Brasil, quando ainda era conhecida como Rua de Carreiros. O que hoje associamos às elegantes moradias da Foz era, até ao final do século XIX, uma paisagem muito diferente, onde o mar chegava mais perto, predominavam construções vernaculares e uma comunidade ligada à pesca e à agricultura.

A chegada dos banhos de mar, da burguesia portuense e das novas “villas” transformou profundamente este lugar. Muita desta gente foi para Matosinhos ou a Afurada, (daí que pequena comunidade da Cantareira que vai ousando resistir seja ainda de maior a importância); das casas desapareceram para dar lugar às grandes residências e palacetes que ainda hoje definem a imagem da Foz, mas que em parte já foram levados por uma segunda voragem na segunda metade do século XX. Não era a gentrificação, era o aburguesamento. Felizmente, algumas sobreviveram. Uma delas continua entre nós: a casa onde hoje funciona o Bonaparte (no quadrado amarelo), mas não é a única, todas as outras ainda lá estão neste correr entre a rua Rui Barbosa (mais à esquerda) em direção à Senhora da Luz, com o velho farol sobranceiro a tudo o demais.

O Porto nunca foi uma cidade imóvel. Cresceu, demoliu, reconstruiu e reinventou-se continuamente. A diferença está na consciência com que hoje olhamos para essa transformação. Percebemos que o património não é apenas aquilo que é monumental ou excepcional; é também o tecido urbano quotidiano, as casas correntes, os alinhamentos de uma rua, uma frente marítima ou uma paisagem construída. É aí que reside grande parte da nossa identidade e do nosso sentido de pertença.

É precisamente sobre esta história (e outras) - de como o Porto descobriu o mar e de como a Foz se transformou - que iremos conversar nos nossos próximos passeios:
9 de Agosto – Passeio em Inglês
23 de Agosto – Passeio em Português (espreitem a nossa página para mais informação)

Porque compreender o passado ajuda-nos também a compreender
as mudanças da cidade em que vivemos.

Obrigado a todos. :)

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