05/08/2026
E se o Palacete de José Augusto Dias tivesse chegado aos nossos dias?
Por finais do século XIX, o Engenheiro António da Silva era um dos homens mais atarefados da cidade. Enquanto o Porto crescia impulsionado pelo comércio, pela indústria e pelo regresso de capitais do Brasil, a Foz transformava-se rapidamente de uma pequena comunidade de pescadores e lavradores no mais prestigiado lugar de veraneio da burguesia portuense. Médicos prescreviam os banhos de mar, o eléctrico aproximava a costa do centro da cidade e uma nova elite procurava na arquitectura a expressão do seu sucesso económico e cultural.
Foi neste contexto que nasceram alguns dos mais notáveis palacetes da Foz. Encomendados por famílias como os Andresen, os Tait, os Santos Júnior ou José Augusto Dias, estes edifícios eram muito mais do que grandes casas. Implantados em amplos jardins, cuidadosamente orientados para o mar e organizados em torno de espaços de recepção iluminados por lanternins, representavam uma nova forma de habitar. A casa deixava de ser apenas abrigo para se tornar cenário da vida familiar, da representação social e da relação quotidiana com a paisagem atlântica.
A arquitectura de António da Silva soube interpretar esse momento como poucos. Inspirado pelas correntes francesas e pelos princípios de Viollet-le-Duc, abandonou progressivamente o academismo rígido do século XIX para criar uma linguagem própria, onde volumes assimétricos, torres-miradouro, grandes beirais de madeira, coruchéus, coberturas complexas e uma notável atenção à sequência dos espaços conferiam personalidade a cada residência. Mais do que desenhar fachadas elegantes, desenhava percursos, enquadramentos e experiências de habitar.
Essas torres, que hoje parecem quase inseparáveis da imagem da Foz, eram muito mais do que um capricho decorativo. Dominavam a paisagem, ofereciam vistas privilegiadas sobre o oceano e afirmavam a posição social dos seus proprietários. Eram símbolos de uma época em que a arquitectura se tornava também linguagem de prestígio e de afirmação pessoal.
Mas a própria cidade continuou a mudar. A partir da década de 1920, este modelo de grande palacete isolado começou a desaparecer. A nova casa unifamiliar, mais compacta, confortável e adaptada a um modo de vida menos dependente do serviço doméstico, substituiu progressivamente estas grandes residências. Durante o século XX, muitas foram abandonadas, divididas ou adaptadas a novos usos, tornando-se sedes de empresas, bancos, clínicas ou instituições, sobrevivendo graças à qualidade da sua construção, mas já desligadas da função para que tinham sido concebidas.
Curiosamente, é já no século XXI que muitos destes edifícios parecem reencontrar o seu lugar. Uns renascem através da hotelaria, outros graças à possibilidade de construir nos seus vastos jardins, permitindo financiar a recuperação dos palacetes históricos. Não regressam exactamente como residências burguesas de finais de Oitocentos, mas voltam a ser espaços vividos, cuidados e valorizados. A cidade compreendeu finalmente que o seu património não constitui um obstáculo ao futuro, mas uma das suas maiores riquezas.
Infelizmente, nem todos chegaram até nós. Entre as perdas mais significativas encontra-se o Palacete José Augusto Dias, (demolido na década de 1970 - à data pertencente à família Barbosa Leão, salvo erro, para o bloco de habitação que hoje temos), numa época em que a consciência patrimonial ainda era insuficiente para reconhecer o valor urbano, arquitectónico e histórico destas casas. O seu desaparecimento privou a Foz de mais um capítulo da extraordinária obra de António da Silva, mas também nos recorda a responsabilidade de preservar aquilo que sobreviveu.
Hoje, quando percorremos a Avenida de Montevideu, o Passeio Alegre ou as ruas que descem ao Atlântico, continuamos a reconhecer a cidade que estes arquitectos e proprietários ajudaram a construir. Mesmo onde os edifícios desapareceram, permanece a memória de uma época em que a Foz descobriu uma nova forma de viver: entre a arquitectura, o jardim e o mar. É essa herança, feita tanto de permanências como de ausências, que continua a dar identidade a um dos lugares mais singulares do Porto.
Olhando para imagem, se em vez do bloco de habitação, hoje ficasse lá, também não deixava de parecer um elemento muito estranho no conjunto. Enquadrado pela casa "Maria Borges" do arquitecto Viana de Lima a norte, "Jose Pratas", as casas geminadas das irmãs "Ventura Santos Reis" e "Henrique Marinho" (de Manoel Marques) a sul. E, claro, o "arranha-céus" a nascente.
Porém, nada de muito diferente desta manta de retalhos que é o Porto, muitas vezes mal-ajustada, mas isso é uma bênção, pois nos deixa encontrar a pré-existência. Concretizando, na próxima vez que lá passarem, ou se puxarem o google maps, verificarão que ainda hoje, cinco quartos de século mais tarde, os pilares originais do muro ainda lá estão a marcar os limites daquela frente. Espreitem!
Muito obrigado a todos!